A Medicina Sugestiva na Antiguidade



Práticas de Cura na Antiguidade ao Século XVII

“A prática da medicina é uma arte não um comércio; uma vocação não um negócio; uma vocação através da qual teu coração será exercitado assim como tua cabeça. Freqüentemente a melhor parte do teu trabalho nada terá a ver com (a prescrição) de poções e fórmulas, mas com o exercício de uma influência do forte sobre o fraco, do justo sobre o mau, do sábio sobre o tolo.”

William Osler. Aequanimitas
The master word in medicine

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A ausência de um conhecimento profundo e sistematizado sobre a fisiologia do organismo e de formas eficientes para se combater as dores e as doenças em geral, marcou a soberania das práticas de cura pela sugestão antes da descoberta dos primeiros anestésicos químicos e da penicilina.

Uma das primeiras técnicas empregadas pelo homem no tratamento das doenças foi a  imposição das mãos, chamada pela civilização Assíria Babilônica de “cura milagrosa pela carícia magnética”. No Egito Antigo ela era simbolicamente representada pelas mãos da Deusa Ísis, a senhora da magia, invocada nas antigas escrituras como uma deusa da cura, restauradora da vida e fonte de ervas curativas. Ísis era venerada pelos egípcios como a senhora das palavras de poder, cujos encantamentos faziam desaparecer as doenças (LERÈDE, 1984; PRADO, 1967).

Atribuíam-se aos imperadores bizantinos e carolíngios, assim como aos santos da Igreja Católica o poder de cura pela imposição das mãos. A importância dada às mãos nesse tipo de terapêutica era alta, visto que delas surgiu a etimologia da palavra “médico”. Uma referência a Hércules, também conhecido como “daktylos”, que significa dedos, e, portanto, o termo latino medicus à Academia de Ciências de Paris que não significa outra coisa, senão, dedo médio (THOMAS, 1991).

Durante a Idade Média, a razão teológica se tornou a guia do pensamento, da moral e da justiça, na sociedade européia. Para a Igreja Católica a ação sobrenatural era uma possibilidade, mas que só poderia emanar de duas fontes possíveis: de deus, ou do diabo. E com exceção das graças obtidas nos rituais litúrgicos, ou da atividade curativa dos Santos, todo o restante era considerado diabólico e, portanto, abominável (THOMAS, 1991).

Os curandeiros tinham que alcançar um resultado por meios puramente naturais, ou dirigidos por Deus, caso contrário, poderiam ser acusados de conjuração e de aliar-se a Satã, crime pago com penas de tortura e execução (FOUCAULT, 2004; LEVACK, 1988). Todavia era o estatuto do que seria “natural” que guiava a interpretação da Igreja e dos estudiosos sobre a qualidade dos procedimentos de cura. As interpretações que se estenderam por toda Idade Média, e Moderna pré-iluminista, estavam baseadas em interpretações das obras de Platão (428-347 a.C.) e de Aristóteles (384-322 a.C.) (THOMAS, 1991).

Durante a Idade Média, até por volta do século XVII, os clérigos da Igreja Católica que fossem influenciados pelo neoplatonismo, estariam dispostos a julgar como provenientes de causas naturais uma gama maior de atividades do que seus confrades, adeptos da visão aristotélica da matéria, e muito menos flexíveis. Para Aristóteles nada poderia agir à distância e o que estava em jogo não eram apenas diferenças de princípios religiosos, mas de uma visão do mundo natural. O ressurgimento do platonismo, a ultima escola de filosofia pagã antiga, alimentou a tendência a apagar a diferença entre espírito e matéria. Em vez de ser considerada inanimada a própria Terra era vista como uma coisa viva (ABBAGNANO, 1999; THOMAS, 1991).

Nesse contexto, porém, surgiu um tipo de tratamento diferenciado que recebeu atenção especial das monarquias européias, mas que se manteve relativamente afastado da explicação religiosa tradicional, foi chamado de “Cura pelo Toque do Rei”.

Obviamente não se  pode asseverar a eficácia dos tratamentos daquela época, muito menos compará-los com os atuais, uma vez que temos  contextos históricos e culturais totalmente diferentes. No entanto, as recentes confirmações de que por via mental é possível intervir sobre a fisiologia do organismo e tratar doenças e ferimentos, reacendeu o debate sobre até que ponto as intervenções sugestivas não poderiam, de fato, confirmar muitos dos relatos de cura que há tanto tempo se acumulam e intrigam os pesquisadores.

4.1.2 A Cura pelo Toque do Rei (séculos XIII – XVII)

A cura pelo toque real foi a primeira forma de tratamento conhecida no Ocidente em que se concedia uma pródiga indulgência oficial. Ela se popularizou por vários países Europeus e, segundo Faria (1979), foi iniciada na Inglaterra por Eduardo I, o Confessor, rei da Inglaterra da dinastia Plantageneta entre 1272 e 1307. Entretanto, o cerimonial completo só foi estabelecido no reinado de Henrique VII (1457-1509). Apenas nos anos posteriores à Revolução de 1688, foi que a cerimônia começou a declinar (THOMAS, 1991).

E assim se dava o procedimento de cura real:

Num ofício religioso especial conduzido pelos membros mais importantes do clero anglicano, o monarca depunha suas mãos sobre cada membro da longa fila de sofredores. Os pacientes se aproximavam um a um e ajoelhavam-se perante o monarca, que os tocava levemente no rosto, enquanto um capelão lia em voz alta o versículo de são Marcos: “Eles porão mãos sobre os doentes e eles se recuperarão”. A seguir retrocediam e avançavam de novo, para que o rei pudesse colocar em seus pescoços uma moeda de ouro pendurada numa faixa de seda branca (THOMAS, 1991, p.67)

A partir do século XIII, até meados do século XVII, por toda Inglaterra as autoridades paroquiais levantavam recursos para levar os doentes de escrófula – uma inflamação tuberculosa das glândulas da garganta, geralmente causada pela ingestão de leite estragado – para Londres, em busca da cura pelo toque do rei (THOMAS, 1991).

Dados da época apontam que Eduardo I tocou mais de mil doentes por ano no final do século XIII, Carlos II atendeu a mais de 90 mil doentes de 1660-4 e 1667-83. E em Maio de 1682 e Abril de 1683, atingiu o ápice de 8577 pacientes no Registro de Cura do Rei, o que representava quase metade da população (THOMAS, 1991).

Fazia-se grande defesa do valor terapêutico do toque real. O cirurgião Richard Wiseman declarou ter presenciado centenas de curas e afirmou que Carlos II curou, num único ano, mais doentes “do que todos os cirurgiões de Londres em uma vida inteira.” (THOMAS, 1991).

Na metade do século XVI, na Inglaterra, a expectativa de vida da população era baixa, as estatísticas mais otimistas situam a expectativa de vida em quarenta e cinco anos, enquanto que as mais pessimistas afirmam falam em vinte nove anos (THOMAS, 1991). No entanto, mesmo os que escapavam das moléstias causadas por doenças e deficiência alimentares estavam condenados a uma vida de dores físicas intermitentes, pois as fontes literárias sugerem que muitas pessoas sofriam de um ou outro mal crônico.

Os ricos e os pobres eram igualmente vítimas das infecções provocadas pela falta de higiene, desconhecimento de anti-sépticos e falta de saneamento básico. No século XVII, as epidemias foram responsáveis por 30% das mortes em Londres. Havia surtos periódicos de gripe, tifo, disenteria e varíola (THOMAS, 1991, p.21):

No século XVI e início do século XVII, os médicos formados nas universidades recebiam um ensino puramente acadêmico sobre os princípios de fisiologia dos humores, tais como apresentados nas obras de Hipócrates, Aristóteles e Galeno. Aprendiam que a doença surgia de um desequilíbrio entre quatro humores (o sangue, a fluegma, a bílis amarela e a bílis negra).

Os médicos do século XVII eram incapazes de diagnosticar ou tratar a maioria das doenças, sem falar que, como declarou o bispo Latimer, em 1552, a medicina “é um remédio preparado apenas para as pessoas mais ricas, e não para os pobres…” (TAVARES DE SOUSA, 1996, p.23).

Alguns reis atribuíam à propriedade curativa de suas pessoas, ao dom específico de Deus, ou à eficácia das palavras. O fato é que fosse o curador um rei, um membro do clero, ou um curandeiro popular, ter prestígio mostrava-se ser um dos elementos fundamentais para a eficácia de sua terapia (THOMAS, 1991).

Os racionalistas defendiam que as curas se deviam mais a influência da imaginação do que à virtude do toque, ou de alguma intervenção divina. Nessa época, o pensamento no cristianismo medieval era predominantemente mágico, uma vez que as pessoas acreditavam na sua capacidade de produzir efeitos físicos à distância por meio do uso de fórmulas mágicas, simpatias e amuletos (LEVACK, 1988).

A terapêutica mágica encontrava respaldo nas idéias médicas e filosóficas de Ibn Sina (980-1037), conhecido na cultura ocidental como Avicena, célebre filósofo e médico persa. Em suas obras, escritas no século X, ele defendia que a imaginação humana possuía poderes e força que capaz de atuar diretamente sobre o funcionamento corporal: “Pela palavra, pela vontade e pela persuasão – afirmava Avicena – muitos padecimentos podem ser curados.”(Avicena apud FARIA, 1979, p.5).

Com a invenção da imprensa pelo alemão, Johannes Guttenberg (1390-1468), se deu início ao desenvolvimento de uma nova tecnologia que teria um impacto social profundo nas décadas subsequentes.  Com a maior difusão dos livros e das idéias, surge o movimento de Reforma Protestante, que proclama a autonomia da consciência individual e postula um relacionamento direto entre o homem e Deus, removendo muitos intermediários religiosos que o catolicismo medieval havia estabelecido entre eles. Desenvolveu-se, assim, a idéia de que cada crente era um sacerdote que, pela leitura da Bíblia, poderia adquirir fé, por si só e obter a salvação (LEVACK, 1988).

A cura pelo toque do rei começa a entrar em decadência a partir de 1681, e vai sendo progressivamente abandonada. O enfraquecimento do absolutismo teocêntrico possibilitou a difusão de novas idéias e terapêuticas sugestivas que trouxeram à tona a “Magnetoterapia”, uma técnica de aplicação de metais para tratamento de doenças (BINET e FÉRÉ, 2008).

Fonte: Saúde, Poder e Cura: concepções sobre hipnose e a saúde coletiva.
Dissertação de Mestrado em Saúde Coletiva
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Leon Vasconcelos Lopes