Sem Mente e Sem Cérebro, apenas, Comportamento


Nível Intermediário:
indicado para
estudantes de psicologia
e terapeutas em formação.

Podemos falar que a Psicologia é uma ciência que tem por objetivo explicar o comportamento humano. Porém, ela tem encontrado dificuldades para definir um objeto único e particular de estudo pelo fato de existirem diversos sistemas psicológicos apoiados em teorias e conceitos variados.

Este artigo destaca uma ciência psicológica específica chamada, Análise do Comportamento, que utiliza os métodos das ciências naturais para estudar o comportamento humano.

A sua filosofia é conhecida como Behaviorismo Radical, a área experimental se chama Análise Experimental do Comportamento – AEC, e aplicação clínica é feita pelas Psicoterapias Comportamentais. Esses campos de pesquisa fundamentam a Análise do Comportamento – AC, iniciada por B. F. Skinner, um pesquisador experimental do comportamento.

O diferencial da AC para as demais abordagens psicológicas é que ela não recorre aos termos como: “mente, personalidade, córtex cerebral” para explicar “as causas” do comportamento humano. Ao contrário, o comportamento é resultado da interação do organismo com o meio (físico-social-cultural), processo este produtor da aprendizagem.

A ação do organismo, inicialmente proveniente da seleção natural (comportamentos reflexos) afeta o meio, fazendo com que esta ação inicial produza consequências (Bebê chora por fome, mãe aparece; bebê chora, sem fome, mãe aparece).

Essas interações estabelecem as condições para a aprendizagem. As ações produzem consequências que retornam ao organismo, fortalecendo ou enfraquecendo, a emissão futura do comportamento em situações semelhantes.

A introdução de um agende mediador – mente – cérebro – inconsciente – ego – etc – tira o foco sobre as relações que antecederam a aprendizagem dessas respostas (alteração do organismo) e passam a explicar o comportamento como sendo causado por uma característica intrínseca desses agentes (mente, cérebro, ICS, ego, personalidade, etc).

Deste modo, se produz uma ilusão de explicação satisfazendo, momentaneamente, a ânsia por uma explicação, mas que não pode ser validada experimentalmente (Procedimento semelhante as explicações místico religiosas do comportamento: “Algo aconteceu porque Deus quis”; “Porque há um sentido maior”; “Porque faz parte da evolução do espírito”, etc).

O artigo abaixo, detalha essas diferenças entre as abordagens psicológicas tradicionais e a análise do comportamento:

 

As explicações físicas e mentais do comportamento

Se entendermos o comportamento como uma relação entre o indivíduo e o ambiente, uma das diferenças entre as teorias do comportamento parece estar no modo de explicar essa relação.

Defenderemos, aqui, que a filosofia do Behaviorismo Radical é a única, dentre as demais, que defende o comportamento como um objeto de estudo autônomo.

Explicação Mentalista

mentalismo-150x150O Mentalismo é uma doutrina filosófica que atribui como “causa” do comportamento os fenômenos mentais, que são de natureza especial, diferente do comportamento. Aqui, a mente tem um poder explicativo primordial: a mente explica o comportamento e não o inverso.

Assim, podemos classificar como explicações mentalistas, ou idealistas, todas aquelas que consideram o comportamento um subproduto de “causas” mentais, como sentimentos, intenção, vontade, expectativa, maldade, propósito, personalidade, força de vontade, ou seja, há um “eu oculto iniciador do comportamento, ou ‘eu’ inconsciente”.

Duas Principais críticas ao mentalismo:

(1) negligencia os eventos pertencentes à história sistêmica e interacionista do indivíduo, que poderia explicar o comportamento, e;

(2) por que tais explicações paralisam a pesquisa, tomando os fenômenos mentais como os determinantes exclusivos do comportamento, não sendo mais necessário continuar a investigação.

Consideremos um exemplo para elucidar esses dois pontos:

É comum ficarmos satisfeitos com explicações do comportamento que geralmente invocam sentimentos, ou uma personalidade como supostas “causas”.

Por exemplo, se perguntarmos por que João bateu em Maria, talvez tenhamos como respostas:

1) porque João tem uma personalidade agressiva;

2) ou porque João estava com raiva.

Nesse tipo de explicação, infere-se do comportamento observado de João (bater, por exemplo) uma personalidade, ou um sentimento, e essa mesma inferência é usada para explicar o próprio comportamento: a pessoa se comporta agressivamente porque tem uma personalidade agressiva, e a pessoa tem uma personalidade agressiva porque se comporta agressivamente.

Não se sabe o que merece um estatuto explicativo privilegiado, se é o comportamento, ou a inferência a partir do próprio comportamento.

Partindo desse exemplo, a Análise do Comportamento sugere que indaguemos mais:

1) Por que João apresenta esse comportamento agressivo?

2) Ou ainda, por que João está com raiva?

As respostas a essas questões devem ser buscadas na história de vida e nas experiências atuais do indivíduo. Tanto o comportamento agressivo, quanto o sentimento de raiva, ou seja, reclamam uma explicação!

Mas por que os fenômenos ditos mentais, como, por exemplo, os sentimentos, são inferidos como supostas “causas” do comportamento?

Uma das explicações para este fato é que os sentimentos ocorrem antes, ou juntos, da ação: “os sentimentos ocorrem no momento exato para funcionarem como causas do comportamento” (Skinner, p. 13).

Todavia, quando empregamos a proximidade espaço-tempo como único critério para atribuirmos relações causais, podemos cometer a falácia pos hoc, ergo propter hoc (depois disto, logo causado por isto):

“Se uma coisa se segue a outra, aquela foi provavelmente causada por esta”. Ex.: O relâmpago causa o trovão e o trovão causa a chuva. Opa! O trovão não causa a chuva, embora, em alguns casos, eles possam estar associados.

E essa é justamente a interpretação, sugerindo que não basta recorrer aos eventos mentais para explicar o comportamento, porque tais fenômenos também precisam ser explicados.

Logo, a pessoa está ansiosa porque “criou muita expectativa”! Esta seria uma explicação que faria sentido para os cognitivistas e encerrariam a busca por explicação.

Já o analista do comportamento se perguntaria como “como o ambiente social interfere nessa resposta de ansiedade?”; “Porque ela é diferente de pessoa para pessoa?”.

Para encontrar essas respostas seria preciso estabelecer modelos (hipóteses) e testá-las. Por isso, a maior parte das pesquisas tentam reproduzir os “comportamentos patológicos”  em um modelo animal (Também há bastante pesquisas com humanos, mas por questões éticas, elas não devem expor os sujeitos a riscos desnecessários).

Com o animal no seu recinto, se acrescentam estímulos novos e se estuda a aprendizagem daí decorrente. Por exemplo, ao apresentar um estímulo (um led vermelho) e nos próximos minutos, após o led acender ocorre uma estimulação aversiva, um choque.

Se esta condição se repetir algumas vezes para um choque fraco, e, talvez, até uma única vez, para um choque muito forte. O acender da luz vermelha provocará uma reação de paralisação ou diminuição dos movimentos; aceleração dos batimentos cardíacos; tensão; respiração ofegante, etc. Após o choque acontecer, o animal volta a se comportar normalmente, como se sentisse aliviado.

Assim, compreendemos a “ansiedade” como uma história de aprendizagem que antecede uma estimulação aversiva incontrolável (ele não tem ideia de onde veio esta maldita luz vermelha). E mais, embora o organismo (homem, ou animal) diminua o seu comportamento normal, como se estivesse “esperando pelo choque”, sabemos que é neste “comportar-se” que está a chave para se livrar do choque, ou seja, a chave para mudar a relação de aprendizagem.

 

Fenômenos Mentais e Análise do Comportamento

Apesar de criticar a explicação mentalista do comportamento que, em última análise, relega o comportamento a um subproduto de eventos mentais, a ciência da Análise do Comportamento não nega a existência desses fenômenos!

Porém, dizer que se reconhece os fenômenos mentais não significa necessariamente dizer que se está comprometido com as explicações mentalistas. Pois a “mente” (palavra derivada de alma) não é uma entidade, um lugar, um objeto, ou substância, ela é apenas uma analogia, assim como uma cachoeira é uma analogia para um fenômeno: a água que cai.

Em termos comportamentais: “a mente é o que o corpo faz. E o que a pessoa faz. Em outras palavras, é o comportamento” (Skinner, p. 94).

A Análise do Comportamento não se compromete com uma interpretação dualista, ou seja, explicação que trata mente e corpo como entidades distintas, separadas.

Desse modo, um sentimento, como qualquer outro fenômeno mental, não tem natureza especial, diferente do comportamento. O que sentimos são os estágios iniciais que ocorrem antes do nosso comportamento agir sobre o meio, ou seja, faz parte do próprio comportamento. Os fenômenos mentais são “o próprio corpo do observador, estados ou condições corporais ou, ainda, o corpo se comportando”.

Em última análise, podemos dizer que: o que existe é uma única realidade – a comportamental – a partir da qual a mente é explicada.

 

Explicação Fisicalista

cerebro-160x120Se, no mentalismo, o que faz a mediação entre o indivíduo e o ambiente são os processos mentais de natureza especial, no fisicalismo, são os processos fisiológicos ou cerebrais.

O cérebro, nessa teoria, vem para substituir a mente e para explicar o comportamento. Assim, o fisicalismo considera o comportamento um subproduto de processos neurofisiológicos, tomando o cérebro como “causa” do comportamento.

Tal como no mentalismo, o cérebro não é a “causa” do comportamento, e não deve ser usado como forma de justificar uma explicação.

“O cérebro é parte do corpo e o que ele faz é parte do que o corpo faz. O que o cérebro faz é parte do que precisa ser explicado” B. F. Skinner.

Em primeiro lugar, podemos dizer que a ciência da Análise do Comportamento está preocupada com a explicação do comportamento do organismo como um todo, e não de partes isoladas desse organismo. Nesse sentido, entende-se a assertiva de que o cérebro, que faz parte do corpo, também precisa ser explicado.

Em segundo lugar, a Análise do Comportamento, junto com outras ciências, como a Biologia e a Antropologia, estudam os processos que determinam “a condição daquele corpo-com-cérebro em qualquer momento.”, e são esses processos que explicam “por que” aquele corpo trabalha de uma dada maneira. Enquanto que a Fisiologia estuda o produto desses processos, ou seja, “como” o corpo funciona, e não “por que” funciona desta ou daquela maneira.

Não obstante, o fato de rejeitar o cérebro e os processos fisiológicos como “causas” do comportamento não significa que a Análise do Comportamento não reconhece o papel da Fisiologia, e suas contribuições no estudo do comportamento humano. A crítica ao fisicalismo é por dar um status privilegiado à Fisiologia, isto é, aos processos neurofisiológicos que ocorrem no momento da ação para explicar a própria ação.

Talvez, no futuro, com seus novos instrumentos e novos métodos, a Fisiologia seja capaz de nos esclarecer mais acerca dos processos fisiológicos que ocorrem no momento em que o organismo está se comportando, isto é, como o organismo se modifica ao longo de sua história. Porém, o que ela descobrir “não pode invalidar as leis de uma ciência do comportamento, mas tornará o quadro da ação humana mais completo” (Skinner, 1974/2006, p. 183).

 

O Comportamento pela Análise do Comportamento

Geralmente, entende-se o fisicalismo como uma tese contraditória ao mentalismo. Porém, apesar das diferentes “causas” atribuídas ao comportamento, essas teorias parecem mais semelhantes do que podemos imaginar. Pois, tanto nas explicações mentalistas (mente substancial), como nas fisicalistas neurofisiológicas (cérebro), o comportamento é entendido como subproduto de “causas” extra-comportamentais. O comportamento perde seu caráter unitário, e passa a ser tratado como mero sintoma de processos subjacentes.

É justamente nesse ponto que se encontra uma das principais diferenças entre esses tipos de explicação e aquela proposta pela Análise do Comportamento. Para essa ciência, o comportamento não é a manifestação de causas exteriores ao próprio comportamento, ou à relação comportamental, sejam elas mentais ou neurofisiológicas. O comportamento é um objeto de estudo autônomo. Isso significa que se recorre exclusivamente às variáveis de natureza comportamental para explicar o comportamento.

Em última análise, podemos dizer que o objeto de estudo da teoria fisicalista é a realidade física, e o objeto de estudo da teoria mentalista é a realidade mental, a idéia. Já a Análise do Comportamento “toma como objeto de estudo a realidade comportamental” (Abib,2004, p. 58).

De acordo com Skinner, o comportamento é a relação entre o indivíduo e o ambiente, e para explicar o comportamento é preciso explicar essa relação. Mas como devemos olhar para essa relação?

Para isso, há uma ferramenta conceitual, denominada contingência de reforço, que irá especificar três aspectos que devem ser considerados na explicação do comportamento:

“(1) a ocasião na qual ocorreu a resposta;

(2) a própria resposta e;

(3) as consequências reforçadoras”.

Desse modo, a noção de contingência de reforço mostra que a explicação do comportamento não requer a mediação do sistema nervoso, enfatizado pelo fisicalismo neurofisiológico, ou de processos mentais especiais, proposto pelo mentalismo, para explicar a relação do indivíduo com o ambiente.

O que explica essa relação são as contingências de reforço. Dito de outro modo, o que explica o comportamento é o contexto no qual ele ocorre.

O ambiente não é simplesmente o lugar onde as pessoas se comportam, tampouco é algo que incita, ou força, o comportamento. O ambiente participa das relações comportamentais selecionando as respostas. A consequência passada seleciona a resposta, aumentando, ou diminuindo, a sua probabilidade de ocorrência. Assim, podemos mudar o responder modificando as consequências que se seguem a ele.

Considerando a importância das consequências em seu sistema explicativo Skinner sugere o termo ‘operante’ para definir a classe de respostas que age sobre o ambiente. Segundo o autor, “o termo dá ênfase ao fato de que o comportamento opera sobre o ambiente para gerar consequências” (Skinner, 2007). Embora Skinner enfatize o papel das consequências na seleção de respostas operantes, os eventos antecedentes também participam da relação comportamental, como veremos adiante.

Em suma, para a Análise do Comportamento, o comportamento é um objeto de estudo primordial, assumindo um papel primário em vez de secundário. Nesse sentido, a explicação do comportamento está nas contingências de reforço. Em outras palavras, os analistas do comportamento explicam o comportamento descrevendo relações de dependência entre estímulos (antecedentes e consequentes) e respostas.

Trata-se de um modelo de explicação que não recorre a uma mente especial e ao cérebro autônomo para explicar as relações entre indivíduo e ambiente, mas sim às variáveis de natureza exclusivamente comportamental.

 Considerações Finais do Editor

Todo organismo ao agir sobre o meio irá modificar o meio e, ao mesmo tempo, será modificado devido às conseqüências de suas ações. Essas conseqüências ficam “impressas” como memória e aprendizagem, modificando as respostas subseqüentes, e assim, sucessivamente.

Quando um paciente chega ao consultório diagnosticado com transtorno de ansiedade, ou síndrome do pânico, isso não quer dizer muita coisa, é apenas um termo usado para descrever um padrão de comportamento emitido por esse paciente, em determinadas situações. Mas não explica o que inicialmente fez o paciente ter essas respostas, já que são frutos de uma ação que modificou o meio e gerou aprendizagem.

Digamos que uma criança foi acostumada pelos pais a obter reforços imediatos. Sempre que ela queria alguma coisa, ela gritava, esperneava, ficava com raiva e isso provocava uma resposta nos pais de satisfazê-la. A repetição dessa relação, por anos, ajudou a fortalecer o comportamento imediatista no filho. Ao se tornar adulto, a interação com outras pessoas, levou a extinção, ou puniu, uma parte desse “comportamento mimado”.

Porém, anos mais tarde, após se casar, o paciente tem algum problema de saúde e isso é seguido de recompensas imediatas (que podem ser as mais variadas). Mesmo sem ter consciência dessa relação, o paciente começa a ter frequentes episódios de medo, preocupações com a saúde, sensação de adoecimento, etc.

O final dessa relação de eventos é ir ao psiquiatra e receber o diagnóstico de Transtorno de Ansiedade. Devido a sua orientação fisicalista, o psiquiatra prescreve um medicamento para inibir a resposta secundária, aquilo que acontece logo após sentir medo. Enquanto que a missão do terapeuta comportamental é identificar o estímulo certo e preparar a pessoa para o evento, fazendo com que modifique a propriedade de assustador e não mais provoque a resposta de medo.

Em outras palavras, a análise funcional do comportamento propiciará auto-conhecimento específico ao paciente, permitindo que ele atue sobre o seu meio e produza respostas funcionais. Tentar apenas minimizar as respostas de medo, seja com enfrentamento, ou uso de ansiolíticos, sem que se entenda como essas respostas interagem com o meio social, será uma medida apenas paliativa, já que não produz conhecimento prático sobre as respostas comportamentais.

*Este artigo é uma simplificação do artigo científico, publicado por
M. Carneiro / C. Laurenti. Uma Análise do Modelo de Explicação no
Behaviorismo Radical: o Estatuto do Comportamento e a Relação
de Dependência entre Eventos publicado na revista: Interação
em Psicologia, Curitiba, jan./jun. 2009, 13(1), p. 165-174

Adaptado por: Leon Vasconcelos Lopes, Msc.
analista do comportamento e hipnoterapeuta
Diretor da Comportamento.Net


About Leon Vasconcelos

é psicólogo, mestre em saúde coletiva e bacharel em comunicação social com interesse em jornalismo científico. Sua vida acadêmica iniciou na área das ciências biológicas, por três anos participou de pesquisas experimentais em neurofarmacologia molecular. Largou o mestrado em fisiologia humana para se dedicar à prática da psicologia clínica. Atualmente trabalha com análise do comportamento, finanças comportamentais e psicologia esportiva.