Psicose e Psicopatia


A confusão na distinção entre os comportamentos na psicopatia e os comportamentos nos surtos psicóticos são erros frequentes, não estando limitados ao conhecimento popular. Não é raro os próprios psicólogos e profissionais de saúde confundirem a psicopatia com o surto psicótico.

Esse erro seria semelhante a confundir um golfinho com um peixe, na Biologia, ou uma aranha com um inseto. Parece, mas não é. A distinção deveria ser elementar para os profissionais da saúde mental, mas, frequentemente, são as generalizações e o senso comum que dominam as matérias jornalísticas.

Os jornais, a literatura, a televisão e o cinema são os principais difusores do conhecimento popular sobre tramas e assassinatos associados aos psicopatas. Embora a própria história forense registre os crimes insolúveis de “Jack. O Estripador”, é a literatura e o jornalismo que roteirizaram e deram tom emocional, transformando esses acontecimentos em um produto para as massas. E é, justamente, nesta transição dos fatos para a ficção que as distorções acontecem em nome da arte.

Porém, a psicopatia e a psicose são dois transtornos mentais diferentes e com delimitações bem distintas. Quando estão relacionadas aos crimes, as doenças mentais não tratadas representam fator de risco, mas apenas 1% das pessoas acometidas por psicopatia chega a cometer crimes contra a vida.

Por outro lado, cerca de 75% da população carcerária, nos USA, foi diagnosticada com algum grau de psicopatia. O que significa que parte desse 1% de psicopatas que cometem crimes acaba indo parar nas cadeias, enquanto outros 99% permanecem fora delas.

Agora, vamos diferenciar a psicopatia da psicose.

Para isso, preparei um vídeo com duas matérias policiais para ilustrar as diferenças entre os dois transtornos:

O primeiro vídeo, mostra o comportamento de um psicopata que matou uma mulher e realizou canibalismo;

O segundo, é o depoimento de um caseiro que, em surto psicótico, matou os patrões ao confundi-los com demônios.

Os crimes praticados pelos psicopatas nos chocam, principalmente, pela frieza emocional do ato executado e a naturalidade do acusado ao descrever o crime.

A psicopatia também é conhecida por Sociopatia, ou Transtorno de Personalidade Anti-Social. Um transtorno classificado no Eixo das Neuroses, ou seja, não é Psicose. Embora o termo se refira a “personalidade anti-social”, a maioria dos psicopatas é de pessoas bem sociais, ligadas à política, ou a direção de empresas, visando cargos de poder. 

A principal característica da psicopatia é a indiferença afetiva, ou insensibilidade moral. A pessoa com psicopatia pode ter as demais funções psíquicas normais, principalmente a senso percepção. O psicopata é destituído de compaixão afetiva, de vergonha, de remorso, ou seja, não é tocado pela emoção de dó, pena, ou empatia para com o outro.

As pessoas com psicopatia têm níveis de ansiedade mais baixo do que a média. Em situações que uma pessoa normal estaria tremendo e demonstrando sinal não verbais de ansiedade, elas se mantêm frias, talvez daí venha a expressão “cara de pau”*. Como em muitas empresas valorizam a frieza emocional, o termo ”sociopata” foi criado para fazer referência aos psicopatas que se destacam no ambiente corporativo.

Portanto, o psicopata não tem motivação delirante, quando ele mata, o faz por banalidade, por que foi contrariado, ou porque teve uma impulsividade, porém, ele sabe que está cometendo um crime. O seu raciocínio e o juízo da realidade se mantêm inalterados. Alguns são até muito inteligentes e sedutores, usando essas habilidade para manipular as pessoas em benefício próprio. Lembra-se, apenas 1% dos psicopatas pratica crime de morte.

O comportamento no surto psicótico

No segundo caso, vimos o depoimento do caseiro, após matar seus patrões acreditando que eles eram demônios. O caseiro estava convicto de ter realizado uma boa ação, eliminando uma entidade sobrenatural, e não sobre um humano.

Neste caso, se destaca a manifestação do delírio paranóide, enfatizando o comprometimento na sensopercepção (presença de ilusões, alucinações), e no pensamento (delírios). Esta “fuga da realidade” é um dos critérios para se classificar a doença como uma surto psicótico. O termo “surto” refere-se ao fator temporal, depois de um tempo, ele volta a ter noção da realidade. É para isso que serve a medicação e o tratamento psicológico, para ampliar esse período de contato com a realidade.

A psicose é o termo usado para designar transtornos mentais no qual a pessoa é acometida por surtos delirantes, paranóicos e alucinatórios. O caseiro mostrava sinais de surto delirante. Estava evidente uma série de alterações das funções psíquicas, como a sensopercepção, ele dizia ouvir vozes (alucinações auditivas) com conteúdo persecutório (vozes que o ameaçam e o incitam a ação), a linguagem e raciocínio pobres e emoções e afeto inadequados.

Na lógica do delírio, o psicótico age buscando fazer a “coisa certa”, nesse específico, a coisa certa seria eliminar o mal sob a forma de demônio. Provavelmente essa pessoa com sérios transtornos mentais pode ter sido instruída por figuras religiosas a “eliminar demônios”. Assim, o psicótico estaria agindo com “boa fé”, caso a realidade vivenciada por ele fosse a realidade consensual.

Portanto, o psicótico “age certo” mas vivenciando uma realidade alucinatória doentia, enquanto o psicopata “age errado” vivenciando a realidade de uma pessoal normal, porém fria e perversa.

Quando esses casos são levados ao âmbito judicial, o psicótico pode ter a pena reduzida, ou ser inocentado por ser considerado “insano”, ou seja, uma pessoa que não estava com capacidade de pensar racionalmente  (Como no caso do jovem que matou o cartunista, Glauco). Já o psicopata, é julgado como uma pessoa imputável, ou seja, responsável pelos os seus atos (ex.: caso do Maníaco do Parque).

  • OBS.: O assassino do cartunista foi, posteriormente, revertido para imputável. No primeiro momento, ele foi erroneamente considerado psicótico e inimputável. Porém, após ser solto e matar outra pessoa em um assalto premeditado, foi novamente preso, teve o caso revisto, e, dessa vez, foi considerado psicopata, e não mais psicótico. As vezes, é difícil se traçar o correto diagnóstico sem acesso aos comportamentos prévios e a devida evolução do caso. Haja vista que o psicopata pode, ou por simulação, ou por efeito de drogas, parecer estar em surto psicótico para induzir ao erro e ser considerado inimputável. O que aparentemente aconteceu no Caso Glauco.

Psicopata e psicótico, ao mesmo tempo, é possível?

Para a Psicopatologia, a resposta é um contundente: não!

Uma pessoa em surto delirante pode demonstrar inadequação afetiva (embotamento), sendo essa uma disfunção entre os sentimentos e os pensamentos. Tal fato, altera qualitativamente a afetividade, e isso pode conduzir ao erro de identificação.

A “loucura” do psicótico em surto é visível pelo delírio do seu discurso, já a “loucura” do psicopata pode ser identificada pela prática de atos frios, desumanos e perversos, sem que haja abalo emocional. Podemos dizer que psicótico é genuíno no que sente e vivencia. Já o psicopata pode mentir e se passar por insano, justamente, por saber que isso pode diminuir sua pena.

Como o psicopata pode se fingir de esquizofrênico para escapar da punição, o diagnóstico não deve ser feito avaliando-se apenas o ato isoladamente. Há que se levar em consideração todo o histórico social da pessoa analisada. Essa avaliação demanda tempo. A pressão pelo diagnóstico rápido pode comprometer essa avaliação.


* Cara de pau – A capacidade de contar mentiras, justificar práticas erradas, mantendo sempre no rosto uma expressão tranquila, normal, neutra. Cara de madeira, cara dura, cara deslavada, cara lisa, descarado, cínico, sem-vergonha, safado, mentiroso, mau-caráter, sem escrúpulos, político, calhorda, etc. “Esses políticos são caras de pau mesmo, mentem na maior cara de pau pro povo!” Dicionário Informal.

Bibliografia

PAIM, Isaías. Curso de Psicopatologia. 11 ed revisada. Ed. EPU, 1993.

Leon Vasconcelos, Psy Ms.
Bacharel e licenciado em Psicologia
Terapeuta Analítico Comportamental
www.comportamento.net