Psicoterapia: Análise Funcional versus Análise Topográfica


Um bom exemplo para ilustrar a Análise Funcional, foi citado por Kohlenberg (2006), descrevendo os primeiros estudos de caso relatados na literatura da terapia comportamental (Haughton & Ayllon, 1965).

A paciente da enfermaria de um hospital psiquiátrico estava, há muito tempo, com opções limitadas de terapia, medicamentos e suporte social. Na época, os modelos dominantes de todos os tratamentos eram o médico biológico e o psicanalítico.

Assim, os doutores Houghton e Ayllon desenvolveram um experimento para demonstrar que o controle de aprendizagem por consequências poderia influenciar o comportamento tipicamente chamado de “patológico”.

Os pesquisadores observaram a paciente – Senhora Bia –  e elaboraram a seguinte hipótese de pesquisa: “Poderia o comportamento da Senhora Bia, de segurar a vassoura e varrer o chão, ser modificado pelo controle das consequências?

Para isso, os pesquisadores usaram cigarros que ela adorava como consequência reforçadora. Algumas semanas depois do reforçamento, a paciente passava a maior parte do dia segurando uma vassoura. Os pesquisadores convidaram dois doutores de orientação psicanalítica a avaliar os motivos, ou as causas do comportamento da Senhora Bia, sem que soubessem como este foi estabelecido.

Eis as seguintes explicações dados pelos doutores A e B:

Doutor A:

A vassoura representa para esta paciente, algum elemento de percepção essencial no seu campo de consciência. Como isto veio a ocorrer é incerto; na perspectiva freudiana, poder-se-ia interpretar simbolicamente… De qualquer maneira. Está é certamente uma forma de comportamento estereotipado, que é comumente visto em pacientes esquizofrênicos bastante regredidos, sendo bastante semelhante ao modo pelo qual crianças pequenas se recusam a se separar de um brinquedo favorito, um pedaço de pano, etc.

Doutor B:

O constante e compulsivo perambular dela, enquanto segura a vassoura, pode ser visto como um procedimento ritualístico ou uma ação mágica. Quando a regressão conquista o processo associativo, formas primitivas e arcaicas de pensamento controlam o comportamento. O simbolismo é um modo de expressão dos desejos profundos insatisfeitos e impulsos instintivos. Como mágica, ela controla os outros, os poderes cósmicos estão ao seu dispor e objetos inanimados se transformam em criaturas vivas. Sua vassoura pode ser então: (1) uma criança que lhe dá amor, que é retribuído com devoção, (2) um símbolo fálico, (3) um cetro de uma rainha onipresente…. Sob o ponto de vista de um pensamento primitivo, este é um procedimento mágico no qual a paciente realiza seus desejos, expressos através de uma forma que está muito além da nossa maneira sólida, racional e convencional de pensar e agir.

O que há de errado com as explicações dos Doutores A e B?

Poderíamos argumentar que eles não se basearam na Análise Funcional. Erraram em sua inferência de causalidade simplesmente olhando para a topografia (aparência formal do comportamento).

Os terapeutas comportamentais evitam essas inferências e, ao mesmo tempo, tentam descobrir os fatores causais relevantes para explicar o comportamento. As explicações dos Doutores A e B poderiam estar corretas, são numerosas as possíveis causas do comportamento da paciente. Porém, sem uma Análise Funcional, seria como um tiro no escuro, haveria a impossibilidade de saber qual explicação apropriada para aqueles “sinais e sintomas” em particular, e naquele momento específico.

Os pesquisadores comportamentais acreditam que os comportamentos não têm significado quando separados do contexto onde acontecem. As causas são pensadas como estímulos ambientais* que influenciam o comportamento em contextos específicos.

*Ambiente é tudo que afeta o comportamento, direta, ou indiretamente, e pode ser identificado, seja externo: estímulos físicos, outras pessoas, aspectos da cultura; ou interno: sonhos, devaneios, pensamentos, sensações corpóreas, lembranças, etc.

A Análise Funcional busca identificar esses estímulos e como eles, historicamente, adquiriram tal influência sobre o comportamento do paciente.

A Análise Funcional responde a questão: “Qual a função de tal comportamento?”

Isso é feito por meio da identificação dos estímulos reforçadores, estímulos discriminativos, estímulos eliciadores e operações motivacionais das quais o comportamento é função.

Esses termos se referem aos processos de modificação de comportamento estudados, e cuidadosamente controlados, em pesquisas experimentais com humanos e animais, há séculos. Portanto, não são provenientes de especulações teóricas-filosóficas das tradições em psicologia.

O ponto de vista crucial é que o reforçamento é um processo histórico de aprendizagem. Alguém pede água não porque o reforçamento irá ocorrer e ela receberá água, mas porque o pedido foi consistentemente reforçado no passado, tornando-se parte do repertório daquela pessoa. Inclusive o comportamento verbal pode ter outras funções que não a explícita no pedido (receber água). Dependendo da situação, pode ter a função de “puxar conversa” e estabelecer um vínculo com o outro, ou distraí-lo para furtar algum pertence, dentre tantas possibilidades que ficam ocultas, quando o foco recaí apenas para o conteúdo linguístico.

Por isso, o comportamento verbal não se limita ao aspecto estritamente linguístico (o conteúdo), mas aos aspectos globais das interações e as suas possíveis e múltiplas funções.

A Análise Funcional requer a compreensão histórica única de cada cliente e isso nos permite identificar funções diferentes, apesar de muitos comportamentos serem topograficamente semelhantes (como os comportamentos  psicopatológicos agrupados em categorias, tais como: transtorno do pânico, fobias, depressão, dependência de substâncias, etc.).

A Análise Funcional é preferida não por ser “a verdade” ou a “melhor” em termos absolutos, ou objetivos, mas porque ela é pragmática e conduz a intervenções passíveis de testes e controle. Ela visa modificar os padrões de respostas e ampliar o repertório de comportamentos que sejam mais adaptados à situação, tornando-os mais funcionais e dinâmicos.

É isso o que dá as pessoas a sensação de autonomia, bem estar e realização pessoal, sendo um dos objetivos centrais das terapias comportamentais.

Texto Adaptado de:

Tsai, M., Kohlenberg, R. J., Kanter, J. W., Kohlenberg, B., Follete, W. C., & Callaghan, G. M. (2011). Um guia para a Psicoterapia Analítica Functional (FAP): consciência, coragem, amor e behaviorismo (F. Conte, & M. Z. Brandão, trads.). Santo André, SP: ESETEc (Obra publicada originalmente em 2009).

 

Leon Vasconcelos Lopes
diretor da Comportamento.Net