Hipnose para recordar memórias perdidas


Em 1994, Steven Cook moveu uma ação de 10 milhões de dólares contra o respeitado Cardeal Bernardin, de Chicago. Cook alegava que havia sido molestado por Bernardin, cerca de dezessete anos atrás.

Em 2001, L. Mayes foi a centésima pessoa a ser libertada da prisão, após passar 21 anos preso, condenado, injustamente, por estupro e assalto. Felizmente, testes de DNA provaram a sua inocência.

Você sabe o que Cook e Mayes têm em comum?

As lembranças de abuso de Cook surgiram depois que ele se submeteu a terapia com hipnose com um suposto terapeuta que havia realizado três horas de um curso de fim de semana. O terapeuta havia obtido o grau de “mestre” em um escola informal dirigida por um guro de auto-ajuda, John-Rodger, que afirmava possuir poderes paranormais (Time, 14 de março de 1994).

Já Mayes participou de duas sessões de reconhecimento na polícia e não foi identificado pela vítima. Porém, depois que a vítima foi hipnotizada, ela identificou Mayes como o autor dos crimes. Durante o julgamento, ela testemunhou com total convicção que Mayes era o agressor.

Esses casos absurdos, desafiam a crença generalizada de que a hipnose “desbloqueia a mente” e libera as memórias reprimidas, permitindo o acesso a acontecimentos passados. Tal crença absurda começou sendo usada por adeptos da Ufologia que utilizavam esse artifício para conseguir as lembranças de abduções (contatos sexuais) com extraterrestre.

Se no campo da ufologia tais recordações podem produzir algumas paranoias, no campo criminal as consequências eram bem mais devastadoras. Há bons indícios de que a hipnose ajudou a configurar um contexto para a criação de falsas memórias sustentadas com uma convicção praticamente inabalável.

Incrivelmente, nos Estados Unidos, até mesmo os professores de psicologia e profissionais de saúde mental acreditam que a hipnose tem o poder especial de desbloquear memórias, sendo que 84% dos psicólogos e 69% dos não psicólogos, ouvidos em uma pesquisa, concordaram que “a memória é permanentemente armazenada na mente” e que “…com a hipnose e outras técnicas especializadas, esses detalhes inacessíveis poderiam ser recuperados”. (E. Loftus & G. Loftus, 1980).

Há dados levantados pelo psicólogo e hipnólogo, Michael Yapko (1994), de uma amostra com 850 psicoterapeutas que é ainda mais assustador, cerca de 75% disse acreditar que “A hipnose permite que as pessoas se lembrem com precisão de coisas que de outra maneira não conseguiriam se lembrar”, e 54% que ela pode ser usada para “…recuperar as memórias de eventos reais desde o nascimento do indivíduo”.

O que nos faz pensar que todos esses profissionais estão bem desatualizados em relação aos estudos da memória e muito bem nutridos de mitos de conhecimento popular generalizado. E no Brasil, o que será que pensam os clínicos profissionais daqui? Estamos sujeitos aos mesmos erros dos americanos?

*A maioria dos estados americanos proibiu o depoimento de testemunhas hipnotizadas nos tribunais

 

Yapko, M. (1994)Suggestibility and repressed memories of abuse: a survey of psychotherapists´ beliefs. American Journal of clinical hypnosis, 36, 163-171.

Loftus, E. F. & Loftus, G. R. (1980) –On the permanence of stored information in the human Brain. American Psychologist,35, 409-420.

Para saber mais:

Os 50 maiores mitos populares da psicologia: derrubando famosos equívocos sobre o comportamento humano. Mitos sobre memória, Cap.03. Ed. Gente, 2010.

Lilian M. Stein. Fundamentos Científicos e suas Aplicações Clínicas e Jurídicas. Artmed, 2010.

Os sete pecados da memória: como a mente esquece e lembra. Daniel Schacter, Rocco, 2003.

Creating False Memories – https://faculty.washington.edu/eloftus/Articles/sciam.htm

False Memories Implanted in Mice – http://www.livescience.com/38430-mice-implanted-with-false-memories.html

 

 

As falhas da memória podem ser classificadas em sete pecados fundamentais, que chamo de: transitoriedade, distração, bloqueio, atribuição errada, sugestionabilidade, distorção e persistência.

Os Sete Pecados da Memória (Schacter, 2010).

Leon Vasconcelos Lopes
psicólogo, jornalista,
professor de hipnose clínica e psicoterapia
www.comportamento.net

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About Leon Vasconcelos

é psicólogo e mestre em saúde coletiva. A sua vida acadêmica teve início na área das ciências biológicas, participou de pesquisas experimentais em neurofarmacologia molecular, largou o mestrado em fisiologia para se dedicar à prática da psicologia clínica. Suas áreas de atuação são: a análise do comportamento, as finanças comportamentais e a clínica comportamental.