A Falsa Psicologia


50 mitos psicologia

Como observou o norte-americano George Kelly (1955), um teórico da personalidade, somos todos psicólogos de poltrona. Sempre estamos procurando compreender o que serve de motivação para os nossos amigos, familiares e estranhos. Esforçamo-nos para entender por que eles fazem determinadas coisas.

Além disso, a psicologia é parte inevitável da nossa vida cotidiana. Sejam em nossos relacionamentos amorosos, nas amizades, nos lapsos de memória, nas crises emocionais, na insônia, em nosso desempenho em testes ou nas dificuldades de adaptação, a psicologia está presente em tudo o que nos cerca.

A imprensa nos bombardeia quase diariamente com idéias a respeito do desenvolvimento cerebral, da paternidade e da maternidade, da educação, da sexualidade, dos testes de inteligência, da memória, dos crimes, do uso de drogas, dos transtornos mentais, da psicoterapia e de uma desconcertante sucessão de outros temas.

Na maioria dos casos, somos obrigados a aceitar essas concepções baseando-nos apenas na fé, pois não adquirimos as competências inerentes ao pensamento científico para que pudéssemos avaliá-las. Como observou Sérgio Delia Sala (1999), professor da Universidade de Edimburgo, na Escócia, “livros escritos por crédulos e para crédulos existem em abundância e vendem como pão quente” (página xiv).

Isso é uma vergonha porque embora algumas concepções da psicologia popular sejam bem fundamentadas, muitas outras não o são (Furnham, 1996). De fato, boa parte da psicologia cotidiana consiste daquilo que o psicólogo norte-americano Paul Meehl (1993) chamou de “induções formais”: hipóteses sobre comportamento baseadas unicamente em nossas intuições.

A história da psicologia nos ensina um fato inegável: embora nossas intuições possam ser imensamente úteis para gerar hipóteses que poderão ser testadas por meio de rigorosos métodos de pesquisa, elas se revelam, freqüente e lamentavelmente, falhas como forma de determinar se tais hipóteses estão corretas (Myers, 2002; Stanovich, 2007).

Em grande medida, isso ocorre provavelmente porque o cérebro humano evoluiu com o objetivo de compreender o mundo ao seu redor, e não para compreender a si mesmo, um dilema que o escritor inglês Jacob Bronowski (1966), da área de ciências matemáticas e biológicas, chamou de “reflexividade”.

Para piorar as coisas, muitas vezes nós mesmos criamos explicações para o nosso comportamento que nos parecem razoáveis, mas são falsas (Nisbett & Wilson, 1977). Consequentemente, convencemos a nós mesmos que compreendemos as causas do nosso comportamento, mesmo quando isso não é verdade. (P. 5-6).


About Leon Vasconcelos

é psicólogo, mestre em saúde coletiva e bacharel em comunicação social com interesse em jornalismo científico. Sua vida acadêmica iniciou na área das ciências biológicas, por três anos participou de pesquisas experimentais em neurofarmacologia molecular. Largou o mestrado em fisiologia humana para se dedicar à prática da psicologia clínica. Atualmente trabalha com análise do comportamento, finanças comportamentais e psicologia esportiva.