O que você precisa saber sobre Terapia e Terapia Breve


Uma das dificuldades enfrentadas pelos próprios terapeutas é tentar explicar ao novo cliente “como funciona a terapia”. Esta dificuldade acontece por que a terapia é uma “experiência pessoal única”, portanto, difícil de descrever numa explicação geral, válida para todos. Apesar disso, sem uma boa compreensão – mesmo que teórica da prática – alguns clientes mais ansiosos podem ficar inseguros, achando que “nada está acontecendo”, e usar isso como justificativa para desistirem da terapia.

Por
Leon Vasconcelos, Psy Ms.

Como Funcionam as Psicoterapias

Para minimizar as dúvidas e inseguranças é necessário explicar as principais diferenças entre os propósitos, ou objetivos, da terapia dita “breve” e da terapia  dita “convencional”, ou “de longo prazo” que são os dois tipos de terapias disponíveis.

As Terapias Breves são um estilo de terapia que foi desenvolvido e adaptado para ser utilizado em situações bem específicas, visando promover alívio rápido do sofrimento. Elas objetivam mais a intervenção nos sintomas, e menos, a análise das causas e do contexto que levou ao problema apresentado. Deste modo, os terapeutas que aplicam as terapias breves fazem uso de um conjunto de técnicas psicológicas, das mais variadas, para modificar as respostas comportamentais num breve período de tempo.

O tratamento com a Terapia Breve costuma ser rápido, variando de uma a doze sessões. O mais comum é que o terapeuta faça uma avaliação geral e superficial do “estado atual do cliente” e dê início ao procedimento de intervenção, já na própria entrevista, visando fazer a pessoa se sentir melhor e mais aliviada da crise emocional.

Essa característica torna a Terapia Breve adequada a muitas situações que exigem intervenções rápidas, ou emergenciais. São situações de sofrimento pontuais que podem acontecer durante: catástrofes, perdas de parentes, guerras, descoberta de uma doença grave, internamento hospitalar, ou situações semelhantes produtoras de conflito e de dor, mas que são limitadas a um contexto temporal específico. (Na França hipnose é usada no Samu.)

Por outro lado, as terapias breves são insuficientes para ajudar o cliente a identificar as cadeias comportamentais que causam e mantém os sintomas crônicos, e também para aprimorar comportamentos que envolvem: as relações de afetividade; habilidades sociais; identificação do controle por valores e regras;  desenvolvimento de intimidade; entre outros comportamentos que exigem a tomada de consciência, ampliação do repertório de comportamentos e autoconhecimento.

Algumas terapias breves podem até ser confundidas com “terapias de auto-ajuda”, por compartilharem o foco na mudança rápida, porém, de pouca duração dos comportamentos.

De fato, é difícil para os clientes diferenciar o que é terapia breve – aquela dotada de boa fundamentação científica – das terapias alternativas – ricas em teorias especulativas e energéticas, que oferecem também um conjunto de crenças e valores a ser seguidos.

Esta dificuldade não é restrita aos clientes, muito psicólogos que não tiveram uma formação científica consistente, enveredam para a prática das terapias alternativas, ou mesmo de psicoterapias placebo. Chamo de “formação científica consistente” o desenvolvimento do pensamento lógico; o engajamento em pesquisas; a leitura frequente – e crítica – de artigos científicos; o conhecimento dos estudos com controle experimental; e também a experiência com o sofrimento de doentes psiquiátricos graves, que exige intervenções realmente eficientes para a mudança de vida.

Infelizmente a publicidade das “curas rápidas” promovida pela ausência da “formação científica consistente” e o excesso de interesse comercial, tem levado muitas pessoas a gastarem suas esperanças em terapias ineficazes. A administração de terapia incompatível com a demanda do cliente é um desserviço. Ela acontece quando o cliente com problemas crônicos, acaba indo parar no tratamento paliativo da terapia breve. Ou o oposto, quando o terapeuta com formação somente em terapia “de longo prazo” não está familiarizado com as técnicas rápidas da terapia breve,

Separando o Joio do Trigo

A confusão na escolha e na adequação do tipo de terapia pode acontecer por dois motivos principais: 1) Devido as limitações do próprio terapeuta que se especializou em um tipo específico de terapia e passou a adotá-la com todos os clientes; 2) Quando o cliente tem um problema crônico, que demandaria uma terapia “de longo prazo”, mas ele insiste em ser tratado em poucas sessões, porque viu alguém, ou alguma técnica, na TV ou internet, prometer curas rápidas para quase tudo.

As intervenções famosas por oferecerem “curas rápidas” são chamadas de “terapias sintomáticas”. Os critérios para a sua aplicação devem ser respeitados, limitando-se aos problemas e situações emergenciais mencionados.

Já o objetivo das Terapias “de longo prazo” é a promoção de mudanças duradouras no comportamento, coisa que não se consegue sem a compreensão do ambiente comportamental – o que inclui acesso à história de aprendizagem do cliente; os modelos familiares; os valores e regras; a socialização; a expressão de afetividade, entre outras classes de comportamentos importantes para a boa socialização.  As Terapias de “longo prazo” são chamadas de Terapias Causais.

A Diferença na Prática

Um paciente que foi tratado com a terapia de longo prazo, dificilmente recairá, mesmo sendo exposto a novas situações até piores do que as que o trouxeram ao consultório. Isso acontece porque a recaída é também um dos comportamentos analisados e modificados com a terapia causais. É como se aquele cliente virasse uma página daquele problema da sua vida.

Já na terapia breve, o terapeuta só tem tempo para conhecer a queixa aguda e intervir sobre ela. Não há como conhecer a cadeia de comportamentos que está por trás desses sintomas, pois isso demandaria muito mais tempo e uma investigação diferenciada. Portanto, a escolha do método tem que ser o correto.

As vezes é o próprio terapeuta que é iludido pela melhora aparente do cliente, obtida com o uso das técnicas de controle comportamental. Digo iludido por que ele ignora os demais comportamentos que não foram possíveis de se conhecer e analisar, já que o foco é a intervenção sobre o sintoma,  e não a investigação e aprofundada de comportamentos, que por serem mais íntimos, dificilmente são demonstrados de imediato.

As técnicas de terapia breve, embora não garantam durabilidade das mudanças, são as que mais impressionam, pois podem ser aplicadas rapidamente e demonstradas em cursos, palestras e situações de emergência. É justamente por “fazer acontecer” diante do público (como a aplicação da hipnose) que elas dão a impressão de “cura rápida”, quando na verdade, na maioria dos casos , apenas amenizam os sintomas.

Se você tiver consciência de que o problema a ser tratado não é decorrente de alguma situação momentânea, considere que: embora a ideia da “terapia rápida” seja algo sedutor, ela não se aplica ao seu caso.

Por mais que pareça contraditório, cabe à terapia “de longo prazo” o desenvolvimento da experiência de crescimento pessoal, autoconhecimento e mudança duradoura de comportamentos. Ironicamente, é ela que trará a tão sonhada “sensação liberdade e autoconfiança” que todos buscamos. Somente assim, “terapeutizados” estaremos livres da terapia e preparados para enfrentar a sociedade e seus dilemas.

*Obs.: No próximo artigo, falarei sobre estudos que comparam as diferenças de eficácia e tempo de tratamento entre algumas escolas de terapia.

Leon Vasconcelos, Psy Ms.
é psicólogo clínico com formação em terapia
analítico comportamental e terapia breve

Cuijpers e Cols. (2008).
Psychotherapy for depression in adults: a meta-analysis of comparative outcome studies. Journ. C. Clin. Psychol. 76(6):909-22.*