O que é Psicoterapia


Ouve-se muito falar que só vai ao psicólogo quem já está “louco”, seja pela perda do “controle mental” ou pela “loucura” que é gastar dinheiro com um tratamento psicológico. Muitas vezes é essa a imagem que o leigo tem do psicólogo e da psicoterapia. Por isso, vou falar um pouco sobre a natureza da psicoterapia, seus objetivos e a quem ela se destina, esclarecendo melhor qual a função desse tipo de tratamento.

A psicoterapia é uma prática de promoção do autoconhecimento, ou seja, aumenta a percepção que o indivíduo tem de si mesmo, de seus comportamentos, pensamentos e sentimentos. Na nossa sociedade, as pessoas têm dificuldade de fazerem essa auto-observação, e sofrem por desconhecerem as razões de seu agir, pensar ou sentir. Sendo muito comum relatar a sensação de vazio, raiva ou frustração.

Há uma enorme variação entre as pessoas quanto ao grau de autoconhecimento que possuem, pois essa habilidade vai sendo adquirida de acordo com a história de vida de cada um.

A psicoterapia não se resume ao tratamento dos sintomas já manifestos, e não há nenhuma restrição para se recorrer à psicoterapia em qualquer momento da vida em que o indivíduo sinta necessidade de se engajar nesse processo. Pelo contrário, ela fornecer subsídios para que a própria pessoa, entendendo melhor suas características, potencialidades e limites, previna a ocorrência de problemas psicológicos futuros.

Em minha experiência clínica observo que mesmo quando as dificuldades surgem, aquela pessoa que encara o psicólogo como “médico de loucos” demora a buscar ajuda especializada, e muitas vezes, só irá recorrer a um profissional quando os problemas tornaram-se complicados o bastante, a ponto de interferirem na dinâmica familiar, ou produzirem sintomas tais como episódios depressivos, de ansiedade, stress, fobias, etc.

Chegamos então a um ponto essencial para o sucesso da psicoterapia: a motivação do cliente. Na verdade, o terapeuta não é o responsável direto pelas mudanças ocorridas ao longo do processo psicoterápico, mas tem participação importante: a ele cabe analisar, apresentar alternativas e discutir, juntamente com o cliente, as formas de alcançar as mudanças desejadas.

A motivação é a mola-mestra para que o cliente possa inclusive postergar ganhos mais imediatos que vinha obtendo, não enfrentando determinado problema (mesmo que com isso ele contribua para aumentar o problema ainda mais). Por sua vez, é papel do terapeuta mostrar a importância do esforço do cliente em reconhecer e enfrentar suas dificuldades, e apresentar os ganhos que ele está obtendo para sua vida presente e futura.

Finalmente, podemos afirmar que a psicoterapia não funciona de forma satisfatória para todos, por melhor que seja o terapeuta. Pessoas muito acomodadas ao seu dia-a-dia, que preferem ocultar suas dificuldades a tentar resolvê-las; não permitem “perder seu tempo” falando de seus problemas com os outros; ou pessoas com pouca habilidade de auto-observação são alguns exemplos de déficits que precisam primeiro ser resolvidos para que os objetivos do psicoterapeuta devem ser voltados antes de tudo para resolver estes empecilhos.

Artigo publicado no jornal O Povo em 06 de agosto de 1994.
João Ilo Coelho Barbosa – Universidade Federal do Ceará