Punição do Comportamento


A punição é uma operação contrária ao Reforçamento. Ela promove a parada, ou a diminuição, do comportamento, após sua apresentação.

Assim como no Reforçamento, a Consequência deve ser imediatamente correlacionada ao comportamento a ser punido. Quanto maior for o atraso (ou latência), menos eficiente será o controle da consequencia – seja ela punitiva, ou reforçadora – sobre o comportamento.

Esse texto é uma continuação do artigo: http://comportamento.net/2016/09/reforco-punicao/ (leia-o primeiro).

São chamadas de “Controle Aversivo” as aprendizagens estabelecidas por meio de apresentação de punições ou retirada de reforçadores positivos.

Lembre-se: todo comportamento é decorrente da interação do organismo com o meio. Sendo assim, temos três ações:

1)   O comportamento acontece e;

2)   Promove uma modificação no meio;

2) A consequência dessa interação retrocede sobre o próprio comportamento, afetando a probabilidade de emissão desse tipo de resposta no futuro, em situação semelhante.

Essa dinâmica do controle do comportamento não foi “inventada”, mas observada na natureza. Assim como a Biologia descreveu a célula como a menor unidade estrutural da vida, a Análise do Comportamento definiu a Contingência Tripla, ou simplesmente Contingência, como representante de interdependência de estímulos e resposta entre organismo e ambiente.

A contingência é a fórmula utilizada para estudar e entender como certos comportamentos surgiram e se mantêm ativos.

Ela específica:

(1) uma situação presente, ou antecedente, descrita como estímulo – já que exerce controle sobre o organismo; (2) algum comportamento, ou resposta, ao ser emitida na presença de tais estímulos discriminativos tem como conseqüência; (3) uma alteração no ambiente, que não ocorreria (a) se tal comportamento fosse emitido na ausência do referido estímulo discriminativos, ou (b) se o comportamento não ocorresse.

Exemplo:

João é acordado no meio da noite por um barulho no quintal. Se João tivesse dois anos de idade, ouviria até melhor do que com seus quarenta anos, mas provavelmente ainda não teria aprendido sobre riscos de ladrões no quintal. Note que o barulho não age apenas como estimulação auditiva, mas como discriminação (ou pista) do risco de ladrão. Veja também que o efeito não está no estímulo em si, pois fosse muito forte – como um terremoto – acordaria criança, adulto e idoso. Foi a história de aprendizagem de João e o contexto – momento e local – onde o barulho (estímulo) aconteceu que controlou a sua resposta – o comportamento de acordar e verificar. Consequente ao acordar vem o comportamento do quê fazer. Ligar a luz do quintal, chamar a polícia, ficar em silêncio, tentar escutar passos, pegar uma arma.

Os comportamentos sempre vêm em sequência. Quando tentamos analisá-los, temos que seguir essas cadeias de comportamentais até chegarmos aos problemas afetivos fundamentais por trás da maioria das neuroses.

Dificilmente uma fobia a gatos é uma relação direta entre o objeto não humano – gato – e a pessoa com fobia. O medo, seja de gato, ou de ladrão no quintal, foi aprendido numa interação envolvendo outros humanos, e boa parte do comportamento manifestado por João foi controlado pelo ambiente social, sendo o gato, ou o ladrão, apenas o estímulo discriminativo para agir de forma x, y, ou z.

Desse modo, o foco de estudo da ciência do comportamento é a interação modificadora e produtora de novos comportamentos. Os pesquisadores buscam isolar e estudar controladamente como as consequências modificaram o comportamento dos organismos.

Vejamos o exemplo experimental, a seguir:

O pesquisador observa o andar do rato, na gaiola de experimentos, e nota o animal fazer periódicas paradas sobre duas patas. Em cinco minutos de observação, ele contabiliza dez paradas sobre duas patas. Tentando diminuir, ou cessar, esse comportamento, o pesquisador passa a eletrificar o chão da gaiola, durante uma fração de segundo, imediatamente após o rato ficar sobre duas patas. Nos quinze minutos seguintes, ele registra o comportamento reduzir de trinta – o que seria esperado – para apenas quatro vezes.  A queda no comportamento acontece gradativamente, após a administração da punição: Nos primeiros cinco minutos, o rato fez três paradas; nos cinco minutos seguintes, apenas uma; e nos cinco minutos finais, nenhuma.

Assim, fica fácil perceber a ação de controle da consequência sobre a modelagem do comportamento dos organismos. Se ao invés de ser apresentado choque, o rato obtivesse comida, imediatamente após ficar sobre duas patas, esse comportamento provavelmente aumentaria de frequência, até começar diminuir à medida que fosse ficando saciada a sua fome.

Outro exemplo, agora do cotidiano:

O professor, após entrar na sala de aula, fica em silêncio, olhando para os alunos, até eles se calarem.

O comportamento do professor funcionou como punição, inibindo a frequência do comportamento de conversar dos alunos.

Então, a punição é a consequência que tende a reduzir a emissão do comportamento. Como é uma consequência, obviamente, estamos nos referindo ao comportamento relacionado à consequência punitiva, ou a retirada de reforçadores (risco que perder o recreio).

É muito comum nos problemas de relacionamento as pessoas se sentirem inseguras por não saber “o que fizeram de errado”. Esse tipo de relato mostra ambiguidade ou a falta de assertividade nessas interações sociais.

Será que você conhece alguém que fica mudo, do nada, e você não sabe o que aconteceu, achando poder ter feito algo que incomodou essa pessoa? Se sua resposta foi sim, agora você já sabe o porquê. Se a mudez for uma demonstração de insatisfação – uma tentativa de punição – ela está sendo aplicada de maneira não assertiva, portanto, está gerando confusão e incerteza, mais do que clarificando a relação.

Você já aprendeu sobre as diferenças entre o Reforçamento do Comportamento e a Punição do Comportamento, partiremos para o entendimento dos termos: Positivo e Negativo, no reforçamento e na punição de comportamentos.

Prepare-se, e reveja as definições, antes de prosseguir, pois agora o nível de complexidade vai aumentar. Se você tiver entendido bem essa primeira parte, então, tenho certeza que dará conta do positivo e negativo facilmente.

O Positivo e o Negativo no Reforçamento e na Punição

O “positivo” e o “negativo” significam apresentação, ou remoção, de estímulos e/ou consequências. Ou seja, quando adiciono um estímulo, ou uma consequência, falamos em reforçamento, ou punição, positiva. Quando um estímulo, ou consequência, é removida, estamos diante do controle do comportamento por reforçamento, ou por punição, negativo.

Vamos aos exemplos da vida real:

Quando você coloca uma ficha numa máquina automática de refrigerantes, a liberação do refrigerante reforça positivamente o comportamento de colocar ficha em máquinas de refrigerantes. Quando você aperta o botão para chamar o elevador, a chegada do elevador no seu andar reforça positivamente o seu comportamento de chamar elevadores. Quando sua mãe o repreende por ter falado palavrão durante o almoço, o comportamento de falar palavrões durante o almoço é punido positivamente. Quando sua mãe o deixa de castigo por não ter feito a tarefa da escola, o comportamento “não fazer a tarefa da escola” é punido negativamente (remoção da liberdade).

Mas lembre-se, só acontecerá reforçamento e punição se o comportamento-alvo da intervenção aumentar e/ou diminuir de frequência, respectivamente.

Essas observações do comportamento de pais, mães e de eventos cotidianos, como a máquina de refrigerantes, são extrapolações de resultados práticos de pesquisas experimentais controladas.

Afirmei que “reforçar é aumentar a freqüência de um comportamento e o Reforçamento do Comportamento é controlado pela ação da conseqüência. Você também já aprendeu que as consequências podem ter o efeito reforçador, ou efeito punitivo.

Porém, a realização da análise do comportamento com humanos no ambiente natural será sempre uma tarefa imperfeita. Isso acontece porque somos forçados a realizar recortes arbitrários das contingências de extensas cadeias comportamentais, sem que possamos ter acesso e controlar todas as variáveis envolvidas.

No laboratório as coisas acontecem como mágica. O rato, gato, cachorro, pombo, abelha e nem mesmo a criança ou adulto humanos – sujeitos experimentais nas pesquisas – não sabem que correlações – reforçamentos e punições – estão sendo testadas. Eles apenas relacionam o efeito de seus comportamentos às respostas que obtém ao fazê-las. É semelhante ao que a gente faz no dia a dia aprendendo por tentativa e erro, ou testando comportamentos de uma situação x para uma situação y – a qual chamamos de “dar um jeitinho, ou fazer uma gambiarra”.

Você lembra quando afirmei: “É possível controlar o comportamento de um grupo de crianças na escola, afirmando que “se fizerem a tarefa” (condição), vão ganhar 10 minutos a mais de recreio (consequência).”

Para a ciência experimental a “intenção, ou propósito” do professor não tem relevância, funcionam apenas como hipótese, o que de fato vale são os resultados práticos da intervenção. Se mesmo com mais tempo de recreio a tarefa continua não sendo feita pelos alunos, isso evidencia a ineficácia da intervenção em aumentar o comportamento de “fazer a tarefa”.

A “intenção” do professor pode ter ser a melhor possível, mas não produziu uma mudança esperada. Assim também funciona na clínica, campo especializado da ciência aplicada. Não importa se o terapeuta é o “Rei do Carisma”, ele precisa ter competência técnica e experiência para analisar e intervir eficientemente, a fim de ajudar na modificação de padrões comportamentais problemáticos.

Voltando ao exemplo dos alunos, se o comportamento “fazer a tarefa” tivesse aumentado, diríamos que adicionar tempo de recreio reforçou positivamente o comportamento de “fazer a tarefa”.

Já no reforço negativo precisaríamos retirar estímulos, ou consequencia, para que o comportamento aumentasse de frequência.

Veja esses casos ilustrativos de reforçamento negativo:

Você toma remédio para “retirar” a dor de cabeça. Mesmo atrasado, precisa parar no sinal vermelho para evitar ser multado, ou colidir com outros carros. Fechamos a janela para diminuir o frio, ou o barulho. Batemos na madeira para “isolar” – retirar – a má sorte. Dirigimos a 40km/h para evitar multa. Chegamos na sala de aula cedo para evitar levar falta.

Todos esses comportamentos são exemplos de esquema de reforçamento negativo.

Importante: É erro elementar, e muito frequente, confundir o reforçamento negativo com a punição. São duas coisas muito diferentes, apesar de ambos serem métodos de controle aversivo. É preciso observar a frequência do comportamento e não o tipo de estímulo. No reforço o comportamento mantém a frequência, ou aumenta – na punição, diminui.

Agora te desafio a analisar a seguinte situação:

Por não ter feito a tarefa de casa, a professora proibiu Joãozinho sair da sala, na hora do recreio.

O comportamento de Joãozinho foi punido, ou foi reforçado positiva, ou negativamente?

Enquanto você pensa no assunto, vou resumir as quatro relações básicas de controle do comportamento:

Reforçar Positivamente – aumentar a freqüência do comportamento pela apresentação de uma conseqüência reforçadora.

Reforçar Negativamente – aumentar a freqüência do comportamento pela remoção de uma conseqüência, ou estímulo, aversivo.

Punição Positiva – diminuir a frequência do comportamento pela apresentação de uma consequência aversiva, ou estímulo aversivo.

Punição Negativa – diminuir a frequência do comportamento pela remoção de um estímulo, ou consequência reforçadora.

Voltando para o exemplo do Joãozinho, fica claro tratar-se de uma Punição Negativa administrada pela professora, correto?

Depende!

Se você disse: “sim”, pode ter se precipitado, iludido pelo foco exagerado no estímulo, e não na frequência do comportamento.

A primeira coisa a fazer é questionar o  seguinte:

1) qual o comportamento avaliado;
2) A frequência aumentou, ou diminuiu, após a intervenção.

Para isso, precisamos identificar corretamente o comportamento-alvo na intervenção da professora. Neste caso, a punição foi para o comportamento de “não fazer a tarefa.”

Se a frequência do comportamento de “não de fazer a tarefa” diminuir, podemos falar em punição negativa (retirou-se o recreio). Mas perceba a incoerência desse tipo de conduta, os métodos de controle aversivos envolvem o risco da punição diminuir também o apreço que Joãozinho tinha pela professora, podendo ele ficar decepcionado e aumentar a frequência de não fazer a tarefa. Neste caso, a intervenção teria efeito reforçador de não fazer a tarefa, e não punitivo, como desejado.

Essa é a grande desvantagem do controle aversivo. No exemplo dos alunos ganhando mais tempo de recreio, há o incentivo para a emissão do comportamento. É como numa pescaria, você usa uma isca para seduzir o peixe a beliscar o anzol.

Já a conduta punitiva da professora, funcionaria como a maioria das nossas leis, você é induzido a agir pelo risco da perda de um benefício.

Para entender o porquê, após ser punido pela perda do recreio, o comportamento de Joaozinho, “de não fazer a tarefa”, aumentou, teríamos que reformular o recorte de análise do comportamento, a tal da Contingência tripla.

Teríamos que pensar em outras hipóteses, isto é formular problemas do tipo: Se.. e Então.. e testá-las:

Hipóteses:

O apreço e a boa relação afetiva da professora funcionava como reforçador positivo para a realização das tarefas. Ao ser punido, houve como consequência, a perda de reforçador positivo e, consequentemente, a diminuição na frequência do comportamento.

Mas numa situação real poderia haver várias e várias hipóteses a ser testadas:

Talvez Joãozinho estivesse sendo mais afetado pela ameaça de separação dos pais do que pela relação com a professora. Ou mesmo, Joãozinho poderia estar sofrendo bullying dos colegas. Joãozinho poderia estar com problemas de visão e ter dificuldades em ler e escrever, entre outras dezenas de possibilidades.

Somente conversando com ele e investigando, hipótese por hipótese, coletando pistas, fazendo o trabalho de Sherlok Holmes, poderíamos descobrir o que estaria controlando esse comportamento. É mais ou menos assim o trabalho que o analista do comportamento faz.

Capítulo do Ebook –
Autor: Leon Vasconcelos

Textos anteriores:

Analisando o Comportamento Humano