O Estudo Experimental do Comportamento


A ciência do comportamento criou uma série de termos técnicos para descrever relações de controle do comportamento. Essas relações foram descobertas pela observação experimental da aprendizagem de novos comportamentos.

A compreensão das operações controladoras do comportamento – de como os estímulos ambientais controlam o comportamento do organismo – ajuda os analistas do comportamento a diagnosticar e a tratar os transtornos comportamentais, produzir novas metodologias de ensino, e melhorar as relações humanas nas mais variadas áreas.

Vamos aprender os dois primeiros procedimentos básicos de controle do comportamento, chamados: “Reforçamento” e “Punição” do Comportamento.

As gaiolas e os gatos

Uma das primeiras pesquisas a sinalizar “o poder das consequências” na produção e manutenção da aprendizagem, foi feita por Thordike (se pronuncia “torn daique”), na época, estudante de psicologia.

O experimento de Thordike consistiu em desenvolver “gaiolas quebra-cabeças” para estudar a aprendizagem dos animais. Ele usou gatos domésticos como sujeitos experimentais e observou o comportamento dos gatos, antes e após serem colocados dentro dessas gaiolas.

Cada gaiola era projetada para abrir, caso o gato conseguisse seguir uma série de procedimentos, como, por exemplo: baixar alavancas, puxar cordões e empurrar botões (cada gaiola tinha uma sequência específica). Ao conseguir realizar a sequência, a porta abria, o gato saia, e se deparava com um prato com leite à sua espera.

Quando um gato conseguia executar corretamente a sequência da gaiola, ele repetia o feito bem mais rápido nas tentativas seguintes. Era como se ele “decorasse a sequencia”. E isso chamou atenção do pesquisador.

As operações, ou sequências, que levavam o gato a sair da gaiola tinham efeito sobre a aprendizagem do bichano, fazendo com que ele as repetisse em situações posteriores. Throdike deu a essa descoberta o nome de “Lei do Efeito”.

Essa foi uma das primeiras observações científicas a evidenciar que a chave para a seleção do comportamento estava nas consequências da interação do organismo com o ambiente. Até os comportamentos instintivos – aqueles apresentados pela espécie – como piscar os olhos, salivar, tossir, dilatar e contrair a pupila, poderiam sofrer alterações pela interação com o meio.

REFORÇAMENTO

O “Reforçamento” acontece quando uma resposta ao ambiente (seja uma ação, sentimento, ou pensamento) é seguida por uma consequência que promove o aumento da emissão daquela resposta, em situações seguintes. Isto é, o reforçamento é uma relação que aumenta a freqüência do comportamento pela apresentação de uma conseqüência reforçadora. É importante considerarmos o “reforçamento” como uma função, e não como algo fixo.

Essa definição do reforço como “função” nos obriga a analisar cada caso específico. Pois teremos que identificar as consequências reforçadoras para cada comportamento de uma pessoa. Não podemos simplesmente preestabelecer: “Chocolate é um reforçador do comportamento”. Isso seria uma generalização equivocada.

O que podemos fazer é descobrir que: “Chocolate é um reforçador do comportamento do Pedrinho, principalmente, próximo ao horário do recreio”. Nessa afirmativa estamos usando dados coletados sobre o Pedrinho, pois o conhecemos e sabemos que ele adora chocolate. Enquanto antes, estávamos apenas fazendo uma especulação generalista sobre o chocolate.

Essas generalizações são muito comuns nas psicologias do senso comum, mas não são suportadas no meio científico. Só podemos generalizar quando tratamos dos reforçadores primários: água, alimento, contato social, por exemplo. Ainda assim, o controle desses reforçadores deve ser avaliado em cada contexto, pois pessoas fazem greve de fome e sexo, desidratam horas antes da pesagem de uma luta, e se isolam socialmente. Nesses contextos, certas consequências – como conseguir uma reivindicação política, obter mais atenção e carinho do marido e bater o peso da luta – se tornaram, provisoriamente, consequências mais reforçadoras do que os reforçadores primários.

A privação do organismo é uma das condições que aumenta o poder de controle da consequência na qual o organismo encontra-se privado. Se o sujeito estivesse “de barriga cheia” ele poderia simplesmente ficar dormindo e não emitir comportamento. Já privado de comida, ele será impelido (motivado) a se comportar. Isto é, tende a emitir mais comportamentos, como andar, cheirar, produzir sons, falar, olhar, etc.

Também é preciso lembrar que ter, ou não, “consciência” de que o comportamento está sendo controlado não é um dado relevante, uma vez que a maior parte dos nossos comportamentos são inconscientes. Isto é, não temos noção do que nos controla. Isso é o que torna o trabalho da psicoterapia algo relevante.

“O auto-conhecimento tem um valor especial para o próprio indivíduo. Uma pessoa que se ‘tornou consciente de si mesma’, por meio de perguntas que lhe foram feitas, está em melhor posição de prever e controlar seu próprio comportamento.” (Skinner, 1974, p.31)

Podemos diminuir a velocidade ao passar em frente a uma padaria, sem nos darmos conta de que o cheiro do pão nos fez “diminuir o passo”. A maioria dos nossos comportamentos são controlados sem que tenhamos consciência do que nos controla. Talvez, surja daí o fascínio das pessoas em querer aprender mais sobre o comportamento humano.

Uma estratégia muito comum em Shopping Centers é usar musica ambiente com ritmo lento e tranquilo e bloquear a passagem de luz solar para que os clientes “percam a noção do tempo”. A probabilidade de realizar compras está diretamente associada ao tempo que os clientes permanecem no Shopping.

Exemplo 1 – É possível controlar o comportamento de um grupo de crianças na escola, afirmando que “se fizerem a tarefa” (condição), vão ganhar 10 minutos a mais de recreio (consequência). Neste caso, o recreio deve ser um evento reforçador na história de aprendizagem do grupo de crianças. Não funcionaria para a criança que frequenta o primeiro dia de aula, tão pouco, para a criança que sofre bullying, no recreio.

No exemplo acima, usamos o reforçador secundário, algo previamente aprendido, neste caso a palavra (promessa) indicando um compromisso em dar uma consequência futura – mais tempo de recreio. Os reforçadores secundários e terciários dependem da aprendizagem e precisam ser previamente aprendidos.

Exemplo 2 – Nesse engenhoso experimento, realizado no Brasil, na década de 1960. O doutorando, Isaias Pessoti, modela o comportamento de abelhas para baixar uma alavanca vermelha para ter acesso a água com açúcar.

O experimento foi filmado, passo a passo, e é útil para criticar a noção leiga de associar o controle do comportamento a um tipo de manipulação, ou poder. Se isso de fato ocorresse o “poder controlador” seria da água com açúcar, e ela continuaria controlando o comportamento da abelha estando,ou não, o cientista consciente disso.

Para a Ciência do Comportamento o “controle do comportamento” é apenas um termo que nós faz buscar compreender o porquê do organismo agir de determinada maneira. No caso das abelhas do experimento, elas apenas fizeram o que fariam na natureza, ou seja, aprenderam interagindo e sendo sensíveis às consequências, assim como os gatos de Thorndike.

Esse assunto continua…

Analisando o Comportamento Humano


About Leon Vasconcelos

é psicólogo, mestre em saúde coletiva e bacharel em comunicação social com interesse em jornalismo científico. Sua vida acadêmica iniciou na área das ciências biológicas, por três anos participou de pesquisas experimentais em neurofarmacologia molecular. Largou o mestrado em fisiologia humana para se dedicar à prática da psicologia clínica. Atualmente trabalha com análise do comportamento, finanças comportamentais e psicologia esportiva.