Terapia Sexual e Orientação Sexual

impotência sexual

terapia sexual fortalezaUma das áreas mais impactantes sobre o comportamento humano é a sexualidade. O termo “sexualidade” descreve um conjunto de interações biológicas, culturais e individuais que a tornam um comportamento complexo – influenciado por múltiplas variáveis controladoras. Quando a sexualidade se transforma em fonte de conflitos e transtornos emocionais, isso exige análise cuidadosa dos motivos causadores desses problemas e medidas eficientes para tratá-los.

Para obter o tratamento correto é necessário, primeiro, a identificação precisa das múltiplas variáveis envolvidas no conflito. Feito isso, há três intervenções principais – e diferenciadas – usadas no tratamento: 1) a intervenção biológica, realizada por médico e prescrição de medicamentos; 2) a Orientação Sexual, feita por meio de orientações e esclarecimentos sobre sexualidade e cultura; 3) a Psicoterapia, intervenção que mergulha fundo em busca dos aspectos mais íntimos dos comportamentos humanos. Vamos conhecer a diferença das duas últimas, uma vez que exigem trabalho diferenciado e específico:

A diferença entre a Terapia e a Orientação Sexual deve ser clara:

A terapia não se propõe a instruir ou direcionar comportamentos, mas analisar as dificuldades afetivas e a interação social do cliente, dando a ele feedback do impacto do seu comportamento sobre o próprio terapeuta. Essa interação paciente–terapeuta tem objetivo de gerar autoconhecimento e promover a identificação e a mudança de comportamentos para além do consultório. É um trabalho delicado e exige muita experiencia profissional, maturidade emocional e conhecimento avançado em ciência do comportamento, uma vez que se trata de uma intervenção de ciência aplicada.

A orientação sexual, ou orientação de condutas, tem dinâmica diferenciada e não exige tanta experiência profissional por tratar-se de uma relação mais instrucional do que analítica. O profissional usa sua posição de “autoridade” para prescrever, ou instruir, a conduta do paciente, partindo de uma avaliação geral e rápida do problema e torcendo para que o seguimento dessas instruções conduza a melhoria do problema. As instruções funcionam como um procedimento pedagógico, as vezes, chamando de “educação sexual”. Embora sejam baseadas em conhecimento especializado, possuem uma grande abrangência e não mergulham a fundo nas dinâmicas interpessoais e afetivas trazidas pelo cliente – esse procedimento é o faz a terapia.

Na prática, acontece o seguinte. Ao iniciar a terapia, o cliente-paciente nos transmite verbalmente a sua descrição do entendimento geral do problema que o aflige. Digamos que Lucio chega ao consultório queixando-se da perda de ereção durante a atividade sexual. Ele está casado, há quatro anos, e começou a sentir os primeiros sintomas, há oito meses.

Nesse primeiro contato, é realizada uma avaliação geral não só do problema, mas sobretudo, do contexto por trás do problema. Na maioria dos casos, as inabilidades na conduta social de Lucio necessitam ser identificadas, e também as circunstância onde elas ocorrem.

Digamos que a dificuldade esteja restrita à relação de Lucio com sua esposa, Joana. Lucio se mostra incomodado com o comportamento da esposa – o qual ele denomina de passivo e frio. Essa é a sua versão, geralmente, os clientes se limitam a descrever seus sentimentos e os sintomas, alguns culpabilizam o parceiro.

É comum nos relacionamentos afetivos se apontar os problemas no outro, já que temos dificuldade de perceber o impacto do ambiente sobre o nosso próprio comportamento. É para isso que serve a terapia, para identificar com clareza as verdadeiras causas do problema.

Mas vamos considerar que Joana também contribua – por ter aprendido que seu papel de mulher é ser passiva e recatada – fato que também a incomoda, e ela se diz disposta a aprimorar a relação íntima com o marido. Neste caso, temos um bom contexto para a Orientação Sexual, de Joana, sendo ela aplicada de maneira diferenciada da terapia de Lucio.

O que precisa ser esclarecido é que a Orientação Sexual e a Terapia são procedimentos diferenciados e não devem ser confundidos, ou misturados. A terapia vai investigar e se aprofundar em comportamentos além dos sintomas. Outras situações, como estresse no trabalho, dificuldades financeiras, relacionamento familiar, traumas, etc, podem ter impacto nas relações íntimas, embora não pareçam estar diretamente relacionadas.

No caso de Lucio, como orientação de conduta, poderia ser prescrito um livro específico sobre sexualidade – para ser lido e discutido entre ele e sua esposa. A orientação de conduta também poderia se estender à Joana, com dois ou três atendimentos, para esclarecimentos e orientações – sendo uma prática independente, e separada, da terapia.

A orientação pode ser simultânea à terapia, porém, com ressalvas do papel que tem cada uma possui. Lembrando que aqui estou me referindo ao atendimento na terapia individual de Lucio – com queixa de diminuição no desempenho sexual com a esposa – e não no atendimento em terapia de casal para atender uma demanda em comum, de Lucio e Joana.

O relato de desagrado de Lucio em relação ao comportamento da esposa, não implica, necessariamente que sua queixa seja uma demanda terapêutica da esposa. Ela inclusive pode iniciar terapia e trabalhar algo totalmente diferente. Porém, é bem provável que a segurança e o autoconhecimento adquiridos na terapia tragam repercussões positivas sobre sua vida sexual.

Finalmente, temos que entender a terapia como trabalho diferenciado da orientação sexual, que vai além dos sintomas, não sendo restrita, ou delimitada, por eles. Não são poucos os casos de cliente com queixas no desempenho sexual, mas o aprofundamento da terapia pode revelar, por exemplo, alta exigência com a performance – em várias áreas da vida – sendo o desempenho sexual, apenas o motivador pela busca da terapia.

Se a sexualidade for isolada do contexto global, e tratada à separadamente, pode haver uma mudança apenas breve, mas não duradoura dos comportamentos. Uma vez que toda a ação analítica ficaria obscurecida pelo sintoma, e a intervenção breve seria uma tentativa de diminuir os sintomas, porém sem chegar as reais causas do problema e o que limitaria a mudança terapêutica duradoura.


PS.: A orientação sexual é bem mais popular e fácil de ser realizada, comparada ao tipo de relação profissional e afetiva demandada pela terapia. O trabalho realizado por Laura Muller, no Programa Altas Horas, é um exemplo de esclarecimento e orientação de condutas. Já a série In Treatment expõe a diferente dinâmica da relação – mais delicada e profunda – estabelecida por paciente e terapeuta no trabalho da terapia.


Leon Vasconcelos, Psy Me.

É clínico comportamental, há 15 anos.
Atende em Fortaleza, Ceará
Setembro – 2016
www.comportamento.net