Analisando o Comportamento Humano


Aprendemos que “ambiente” é o conceito indicativo da relação de contingência entre o comportamento do organismo e as conseqüências do comportamento (o que implica em uma ação modificadora tanto do ambiente quanto do comportamento). Ou seja, o organismo responde ao ambiente se comportando e é também modificando pela interação que se segue.

“Os homens agem sobre o mundo, modificam-no, e, por sua vez, são modificados pelas conseqüências de suas ações”. (Skinner, 1957/1978, p.15)

Toda aprendizagem é comportamento, mas nem todo comportamento é aprendido, ainda que possa ter a sua frequência e intensidade afetadas pelo meio. O comportamento reflexo é uma resposta de padrão fixo. Por exemplo: grito alto e repentino = susto.  O susto é uma resposta de padrão fixo, ou comportamento reflexo. Sempre que as variáveis de controle estiverem presentes, ele será eliciado. Caso não seja, o grito talvez não tenha sido tão alto ( não atingindo a magnitude necessária); ou algo no contexto antecipou sua apresentação, deixando de ser repentino).

Não há como analisar o comportamento de um organismo separando-o do ambiente, pois o comportamento é uma resposta a esse ambiente.

Todos nós somos controlados pelos estímulos ambientais, sejam eles externos – palavras, calor, placas, olhares, ou internos – fome, dor, sede, pensamentos, sonhos. Quando o estímulo não produz comportamento, ele não é considerado ambiente comportamental.

É importante que perceba que o conceito de “ambiente” difere do da biologia, pois o ambiente comportamental se refere aos estímulos eliciadores ou evocadores de comportamentos, isto é, aquilo que controla o comportamento do organismo.

As respostas tais como: pensamentos, tontura, bexiga cheia, dor de cabeça, entre outras, são comportamentos, porém, são comportamento privados. Para se tornarem públicos necessitam da linguagem, seja verbal, ou não-verbal.

Os ambientes empobrecidos fornecem baixa estimulação e conduzem a pouca variabilidade comportamental. Os experimentos de privação de estímulos mostraram que voluntários isolados em um ambiente pobre de estímulos (auditivos, táteis, visuais, gustativo, olfativos) passavam a maior parte do tempo dormindo. Essa lógica nos leva a investigar, por exemplo, o ambiente de um paciente com depressão que afirma não ter mais vontade para nada.

Se o comportamento deve ser entendido como decorrente da interação do organismo com o ambiente, então, não há como isolar o comportamento para estudá-lo separadamente, como é feito com uma peça de anatomia.

Lembre-se dessas três observações importantes:

1 – Os pensamentos, os sentimentos e até os sintomas podem ser comportamentos, o que nos obrigada a estudar o contexto de sua ocorrência. Eles são comportamentos privados – dependem dos relatos verbais, ou não verbais para que outras pessoas possam identificá-los.

2 – É comum o uso do termo “recompensa” ao se falar em “consequência reforçadora”, mas esse termo é impreciso e induz ao erro de se achar que determinados estímulos são, por si só, reforçadores (exemplo do chocolate). Nem mesmo a água será reforçador caso a pessoa tenha acabado de beber água, ou se estiver sob controle de outras variáveis, como, por exemplo, a orientação do médico para não beber líquido por 12 horas.

3 – Dizer que “o meio seleciona o comportamento”, não significa dizer que o organismo é passivo e o meio é determinante. Não existe esse determinismo, uma vez que o organismo pode estar, ou não, predisposto, ou sensível ao controle do ambiente. Não temos como prever o que é, ou não é, reforçador para uma pessoa, e em qual momento, exatamente.

A Análise do Comportamento é uma ciência natural de base experimental. Ela se diferencia das outras psicologias ao se propor hipotetizar e testar as afirmativas sobre as causas do comportamento. Isso é feito a partir de uma visão monista do homem (não dualista), entendendo o comportamento como uma resposta contextual da interação organismo com o seu ambiente comportamental.

Analisar o comportamento humano implica, primeiramente, conhecer mais a fundo os padrões de comportamento de uma pessoa. Muitas vezes, só teremos acesso aos seus gestos e ao seu relato verbal. O problema é que é falado também pode estar sendo controlado por outras variáveis, por exemplo:

João (que namorada com Maria) marca um encontro com Ana, usando um aplicativo de celular. No encontro, vários assuntos das conversas de João, provavelmente, não vão corresponder ao que ele realmente sente, pensa e faz. João está interpretando uma pessoa solteira, sem namorada. A acompanhante, Ana, por sua vez, só poderá tirar conclusões sobre João baseadas, em parte, nesses relatos distorcidos e enganosos.

Caso garota do encontro, Ana, seja experiente – experiência de ser enganada em encontros anteriores – é provável que ela tenha aprendido a ser mais cautelosa e perspicaz nas suas perguntas, afim de observar contradições nos relatos de João. Por outro lado, uma garota pouco experiente, ou que venha de um ambiente social onde a verdade e a honestidade sejam condutas comuns e compartilhadas, tenderá a ser mais facilmente enganada, simplesmente por confiar plenamente.

Perceba que o entendimento dos comportamentos nas situações da vida cotidiana não são precisos, como nas situações controladas por experimentos. Uma garota que foi enganada por ter “confiado demais”, pode aprender a não confiar tanto, nos próximos relacionamentos. Julgar se o comportamento de confiança ou desconfiança é bom, ou ruim, é tendencioso, pois trata-se de um juízo de valor.

No caso de Ana, ela pode desconfiar por já ter sido enganada em situações anteriores. Porém, Maria nunca passou por tal situação, mas cresceu escutando de sua mãe e tias que “homens não são dignos de confiança”. Desse modo, Maria pode se tornar até mais desconfiada do que Ana, ainda que não tenha tido situações reais que confirmassem sua suspeita, sendo Maria controlada verbalmente pelos relatos das tias e mãe (controle por regras).

Por isso, quando estudamos clinicamente o comportamento de um paciente, nosso foco é analisar a função dos comportamentos e as suas consequências anteriores e presentes. Buscamos entender porque alguém faz o que faz, mesmo percebendo que seu comportamento aumenta suas chances de sofrimento.

Não julgamos as condutas adotadas, pois casa situação e contexto são diferentes. Dependendo do contexto, tanto o comportamento de Ana, quanto de Maria, poderia conduzi-las a realização plena no casamento, ou fazê-las passar a vida inteira sozinhas. Estar em um ambiente repleto de homens honestos e dispostos ao matrimônio favoreceria que tipo de comportamento: o de uma mulher confiante, ou de uma desconfiada?

É comum pessoas mudarem de ambiente, mas continuarem agindo como agiam no passado, mesmo que as pessoas que mediavam suas ações não estejam mais presentes. É como o comportamento de fobia a cangurus de um australiano que veio morara no Brasil. A fobia não foi tratada, mas como no Brasil não há cangurus, falta também o contexto para o comportamento fóbico ocorrer.

Por isso, se afastar de algo significa apenas evitar – se esquivar de situações – o que é diferente de enfrentar e superar o medo.

Resumo

O reforçamento é a função (estímulo – resposta – consequência) que aumentar a frequência de um comportamento. O Reforçamento do comportamento é dependente do contingenciamento de uma consequência reforçadora. É a consequência que controlará o aumento /ou diminuição da emissão do comportamento, em eventos futuros.

Só saberemos se o comportamento foi reforçado se a frequência dele aumentar. Caso diminua, então, a consequência pode ter sido punitiva, tema do nosso próximo assunto: Punição do Comportamento.

* Os comportamentos humanos, emitidos em situações não experimentais são complexos e sofrem influência de muitas variáveis não percebidas por quem se comporta. O trabalho do analista do comportamento – aqui na função de terapeuta – é ajudar o paciente a identificar esses controladores e promover o autoconhecimento para que ele modifique esses comportamentos.

Autor psicólogo Leon Vasconcelos
fundador do Comportamento.Net

Continua no próximo artigo…

Punição do Comportamento


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O Estudo Experimental do Comportamento


About Leon Vasconcelos

é psicólogo, mestre em saúde coletiva e bacharel em comunicação social com interesse em jornalismo científico. Sua vida acadêmica iniciou na área das ciências biológicas, por três anos participou de pesquisas experimentais em neurofarmacologia molecular. Largou o mestrado em fisiologia humana para se dedicar à prática da psicologia clínica. Atualmente trabalha com análise do comportamento, finanças comportamentais e psicologia esportiva.