Diagnóstico, Psicopatologia, Psicologia e Psiquiatria


A palavra diagnóstico significa o reconhecimento do todo através de suas partes.  Em que, “Dia” quer dizer separar uma parte da outra, e “Gnosis” significa reconhecimento, conhecimento, percepção (Andrade e Gentil, 1995). Embora não menos complexo, o diagnóstico em saúde mental tem a agravante de não se amparar na revelação algo físico, concreto, tal como uma radiografia ou exame de sangue, que represente uma evidência empírica da causa dos sintomas apresentados pelo paciente.

O fator determinante das concepções médicas nas interpretações das doenças mentais está embasado em “critérios de normalidade”, que são um conjunto de fatores subjetivos definido culturalmente. Um dos critérios utilizados para definir um distúrbio psicológico ou mental é “ ser diferente da maioria das pessoas em uma cultura”. Para um comportamento ser considerado patológico, além de ser atípico, ele deve ser considerado perturbador pelas demais pessoas da comunidade.

Indivíduos com inteligência ou com desempenho físico acima da média, não são enquadrados como anormais, ao contrário, são considerados possuidores de qualidades e de talentos especiais. Apenas os comportamentos, consensualmente, considerados “desajustados” correm maior risco de serem diagnosticados como fenômenos patológicos (Myers, 1999). Os fatores culturais têm um papel decisivo responsáveis na determinação dos critérios de normal e patológico.

Segundo Myers (1999, p.319), “Os agentes de saúde mental rotulam um comportamento de psicologicamente perturbado quando o julgam atípico, conturbado, desajustado e injustificável”. Adorar vacas e ratos, ou se alimentar de cães e insetos, pode parecer um comportamento anormal quando adotado no Brasil, entretanto, o mesmo comportamento é encarado com naturalidade em países como a Índia, a China, e Tibet.

Este fato, evidencia que o estudo do tema “normal e patológico” está relacionado com a nossa esfera sócio-cultural e sempre deve levar em conta as especificidades de cada organização social.

Critérios de normalidade

A normalidade é concebida, por um lado, como a ausência de patologia, e , por outro, como a conformidade com o tipo médio. É importante ressaltar que a média é uma medida estatística, puramente descritiva e operacional, que tende a ser considerada como regra e como valor, podendo proporcionar uma interpretação equivocada, uma vez que não leva em conta as singularidades, as dissidências e as anomalias, baseando-se em valores atribuídos ao indivíduo e ao comportamento, cuja função é avaliar e detectar a utilidade social das condutas e dos indivíduos (Doron & Parot, 2000).

No quadro de conceituação da normalidade, existem diversos referenciais que podem ser considerados critérios para a diferenciação entre o normal e o patológico. Entre eles, podemos mencionar as quatro principais perspectivas do enfoque das ciências comportamentais e sociais para a normalidade, formuladas por Offer e Dabshin (Kaplan, 1997). São elas:

  • Normalidade como saúde: esta perspectiva fundamenta o enfoque psiquiátrico tradicional que diferencia saúde de doença. “A maioria dos médicos iguala normalidade com saúde, e vêem a saúde como um fenômeno quase universal” (Kaplan, 1997, p.18). Entende-se, desta maneira, que os sinais e os sintomas que estejam em “desajuste” com o que é comum (ou normal), são um sinal de que algo está errado (ou é anormal). Por outro lado, a falta de sinais e sintomas indicaria um organismo saudável;
  • Normalidade como utopia: é a uma noção de normalidade embasada na idéia de conjunção harmoniosa e plena do sistema nervoso funcionando de maneira excelente. Essa concepção se fundamenta no conceito de pessoa ideal e de tratamento mais eficaz da psiquiatria e da psicanálise.
  • Normalidade como média: é baseada em uma média estatística dos estudos normativos do comportamento no qual traços da personalidade são entendidos como um meio de medida estatística ou de medida padronizada do comportamento, como no psicodiagnóstico. A variabilidade restringe-se ao contexto de grupos e não no contexto de uma pessoa. Nesse modelo, presume-se que as tipologias do caráter podem ser medidas estatisticamente (Kaplan & Sadok, 1998.).
  • Normalidade como processo: admite esta concepção que o comportamento está relacionado a situações ou a fases de desenvolvimento da personalidade, cada estágio é possuidor de características intrínsecas. A temporalidade é essencial para uma definição completa de normalidade. A teoria que mais caracteriza esta visão é a de Erik Erickson, que aborda os oito estágios evolutivos imprescindíveis  para a conquista de um funcionamento adulto maduro, quando o comportamento normal é caracterizado como o resultado final de sistemas que interagem entre si. (Kaplan, 1997).

A concepção popular da doença mental, notadamente da “loucura” responsável pela lotação dos hospitais psiquiátricos, resume-se a alguém cujo comportamento difere dos demais e é capaz de provocar algum grau de ansiedade e constrangimento social.

O diagnóstico médico tradicional está alicerçado no modelo de ciência positivista, que acredita na neutralidade e objetividade científicas, segundo a qual o conhecimento descreve a realidade e esta pode ser atingida utilizando-se para isso o método científico. Desse modo, fazendo-se o uso da técnica apropriada o observador se tornaria imune a distorções e julgamentos que levasse em conta a sua própria história de vida e as suas crenças pessoais.

Há também, a partir desta perspectiva, uma notada relação de poder que atribui ao detentor do “conhecimento verdadeiro”, autoridade que fortalece o peso de suas observações, indicações e tratamentos. É a partir desta ordem do real, enaltecida pela visão positivista, que o diagnóstico se torna uma “arma poderosa”, pois uma vez diagnosticado, não há como fugir desta verdade, fato que se assemelharia, em tempos remotos, a uma acusação de bruxaria na Idade Média.

E foi também a razão teológica em vigor na Idade Média, o fator determinante na postura de busca da verdade desenvolvida pelos primeiros cientistas iluministas e que, posteriormente, ganha um estatuto filosófico nas obras de August Comte (1798-1857). O método científico passa a ser considerado a única maneira de se chegar à verdade, mas a uma verdade que privilegiava os aspectos materiais, o organismo, a anatomia e a fisiologia, as ciências naturais, e acredita na objetividade do conhecimento e na neutralidade do cientista (Lakoff, 2002; Braga, 2005; Capra, 1997; Duarte, 2006; Sabóia, 2003).

Como destaca Foucault (1970, p.4):

Desde os arcanos da Idade Média que o louco é aquele cujo discurso não pode transmitir-se como o dos outros: ou a sua palavra nada vale e não existe, não possuindo nem verdade nem importância, não podendo testemunhar em matéria de justiça, não podendo autentificar um acto ou um contrato, não podendo sequer, no sacrifício da missa, permitir a transubstanciação e fazer do pão um corpo (…)

Desse modo, o conhecimento científico passa a vigorar como o local da verdade, e esta verdade é expressa como sendo o próprio real. Para o pensamento positivista, o que não fosse científico não seria digo de valor.

É, sobretudo, a partir dessa concepção científica, histórica e social, engendrada pelo pensamento positivista do século XIX, que o diagnóstico médico passou a ser contestado pelo movimento humanista da década de 1960, frente à sua pretensão de verdade, buscando rediscutir a visão do modelo médico tradicional.

Texto adaptado do artigo:
LOPES, Leon G. V., 2008. Repensando o Diagnóstico como Processo. 2009.


About Leon Vasconcelos

é psicólogo e mestre em saúde coletiva. A sua vida acadêmica teve início na área das ciências biológicas, participou de pesquisas experimentais em neurofarmacologia molecular, largou o mestrado em fisiologia para se dedicar à prática da psicologia clínica. Suas áreas de atuação são: a análise do comportamento, as finanças comportamentais e a clínica comportamental.