O Tratamento Comportamental do Estresse e da Ansiedade


Já publicamos no nosso website textos que falam sobre as causas e os perigos do estresse a partir da visão médica, destacando, principalmente, os mecanismos fisiológicos das respostas de luta e fuga.

*Veja aqui os artigos sobre fisiologia do estresse

Porém, embora não neguemos a importância dos estudos da fisiologia e da neurociência cognitiva, atuamos de maneira crítica em relação as teorias dualistas – aquelas que separam as resposta do corpo, mente e cérebro dos comportamentos.

Esse entendimento não tem origem em especulações teóricas, ou filosóficas, mas na observação e no controle de pesquisas embasadas em sólidos estudos experimentais do comportamento, realizados tanto com humanos, quanto com não humanos. As evidência nos sugerem que o comportamento é uma resposta global e totalizante do organismo em reação aos eventos e contextos ambientais específicos.

Isso significa que os pensamentos aterrorizantes, a resposta hormonal adrenérgica, a sudorese, a hipertensão arterial e as respostas antecipadas de ansiedade são todos integrantes de um só comportamento. O “comportamento temeroso” possui várias classes e graus distintos de respostas, porém, esse conjunto de reações é o que distingue a maneira de João ter medo, da maneira da Maria ter medo.

Pesquisas também já demonstraram que as respostas fisiológicas fazem parte, porém, não causam crises de ansiedade. Pesquisadores aplicaram adrenalina intravenosa em pessoas com pânico e, embora elas tenham relatado várias respostas fisiológicas presente no ataque de pânico – como aceleração dos batimentos, tremores, sudorese, agitação, etc. – ainda assim, a maioria garantiu que o efeito não era como no ataque genuíno de pânico.

A variedade de estratégias recomendadas para aliviar o estresse –  como ouvir musica clássica, praticar exercícios, fazer relaxamento e autohipnose, ter alimentação saudável, e tomar medicação ansiolítica, etc. – são procedimentos muito bem vindos e úteis. Porém, quando indicados de maneira isolada, fora de um tratamento analítico comportamental – que analise da dinâmica e função dos comportamentos em casa paciente – essas estratégias tendem a se tornar paliativos, remediando brevemente o problema, mas não impedindo a sua evolução.

A nossa maneira de tratar o problema vai nos conduzir a realizar uma análise funcional do comportamento problemático, identificando as classes de respostas envolvidas. Em outras palavras, se Pedrinho e Joãozinho foram mordidos pelo mesmo cachorro, do mesmo modo, porque Joãozinho desenvolveu fobia e a cachorros, enquanto Pedrinho, não?

Não são as taxas hormonais, os pensamentos negativos ou positivos, alguma “fraqueza inconsciente” e muito menos as diferenças nos cérebros de João e Pedrinho os responsáveis por isso. Há pelo menos três aspectos fundamentais, a serem investigados: 1) O amparo afetivo e familiar, que assegura coragem e segurança ao garoto; 2) O repertório de habilidades prévio de como lidar com as situações adversas; e, 3) As consequências imediatas da reação das pessoas, logo após o incidente.

Essas três variáveis escrevem a história única de aprendizagem comportamental de cada pessoa e não pode ser inferida a partir de teorias generalistas sobre o cérebro e a mente. Os sintomas apresentados pelo paciente são pistas valiosas sobre a história de aprendizagem,. Eles indicando déficits e excessos comportamentais presentes que mantém o problema ativo e permitem o analista identificar e traçar metas para mudança e adaptação do comportamento.

Portanto, nossa forma de tratar o estresse e a ansiedade, visando não apenas uma mudança rápida de curta duração, mas a produção de autoconhecimento que possa conduzir a uma mudança efetiva e duradoura, é, antes de mais nada:

a) realizando uma análise detalhada – com olhar interacionista da circunstância, da resposta fisiológica, e do impacto social – das condições em que o comportamento ocorre;

b) identificando a função do comportamento ( porque reagir da maneira como Joãozinho reage é funcional para ele? O que trás como consequência no curto e longo prazo? Em que implica sua resposta sobre as outras pessoas? Que outras maneiras de agir estão ausentes?, etc.);

c) estabelecendo metas de intervenção – apoiadas em hipóteses funcionais – que visem modificar os padrões de controle da situação e implementar o comportamento para a promoção de novas respostas mais funcionais e adaptativas.

Para que fique claro, não ignoramos os estudos com olhar focado nas características isoladas, sejam elas fisiológicas, ou os pensamentos e crenças, ou mesmo as características cerebrais. Acreditamos que todos os estudos trazem contribuições. No entanto, para realizarmos efetivamente o tratamento – com efeitos duradouros – devemos integrar esses conhecimentos numa abordagem que avalie a interação de todos os fatores e proponha uma intervenção nas habilidades adaptativas – que nada mais são que a promoção de novos comportamentos.

O autoconhecimento é o princípio-ativo da terapia.

Uma pessoa que se ‘tornou consciente de si mesma’, por meio de perguntas que lhe foram feitas, está em melhor posição de prever e controlar seu próprio comportamento.” (Skinner, 1974, p.31).

Veja também:

Sem Mente e Sem Cérebro, apenas, Comportamento

Veja os artigos sobre fisiologia do estresse:

Estresse: O Assassino Silencioso

O Impacto do Estresse no Organismo