Entrevista: Hipnose na Medicina, Psicologia e Psicoterapia


Questões elaboradas pela jornalista Isabelle Leal, em 20 de Novembro de 2009.

Entrevistado: Leon Vasconcelos, psicólogo, especialista em hipnose com 16 anos de experiência. Atende em Fortaleza, Ceará.

1) O que é hipnose?

É uma técnica que usa a linguagem verbal para controlar, momentaneamente, a forma como uma pessoa percebe e reage aos estímulos ambientais. O treino na hipnose fortalece o controle sugestivo do hipnólogo sobre o hipnotizado, podendo ser uma boa ferramenta para controlar comportamentos na área de saúde, principalmente, usando a técnica para reduzir a ansiedade e a percepção da dor nos procedimentos hospitalares e emergências. Na França, a técnica é aplicada pelos socorristas do SAMU, possibilitando a melhoria no atendimento às vitimas de acidentes.

Veja também: Hipnose no Resgate do Samu

 

2) Quais os primeiros registros científicos da hipnose?

Na medicina, por volta de 1786, a técnica foi introduzida pelo médico austríaco, Dr Anton Franz Mesmer. O modelo teórico defendido por Mesmer era frágil e muito subjetivo, o que criou muita desconfiança e acusações de charlatanismo. Ainda assim, a técnica incentivou a pesquisa psicossomática, os testes duplo cego e destacou a importância dos comportamentos nos processos de saúde e doença.

Mesmo limitado teoricamente, o mesmerismo foi usado para feitos surpreendentes, como, por exemplo, meio de anestesia psicológica em cirurgias de médio e grande porte. Algumas dessas raras obras estão disponíveis, em domínio público, podendo ser lidas e estudadas (Link do Google Books, James Esdailes, Mesmerism in India)

Foi somente em 1843 que a terapêutica de Mesmer sofreu uma reformulação teórica, e passou a ser explicada com base na neurofisiologia. Surgiu assim, o termo ‘hipnose’ demarcando essa transição epistemológica, embora a maior parte dos procedimentos continuassem praticamente os mesmos.

Outro fato importante, a hipnose foi a primeira técnica de intervenção comportamental a obter reconhecimento científico da sua eficácia clínica. O fato aconteceu antes da existência da “Psicologia Clínica”, tornando a hipnose a mãe, ou precursora, da psicoterapia.

3) Quem pode fazer uso da hipnose?

No Brasil, não há restrições ou legislação específica regulamentando o uso da hipnose, somente existe restrição para as terapias físicas e biológicas. Portanto, o campo está aberto para todo tipo de uso, seja ele ético, ou não. Os limites, ou impedimentos legais, existentes são: a denuncia por danos morais; a propaganda enganosa; as garantias legais de prestação de serviços da Lei do Direito do Consumidor; o crime  de coerção com uso de técnica psicológica; e os crimes de curandeirismo e de charlatanismo.

Já os profissionais de saúde regularmente inscritos nos seus respetivos conselho profissionais da saúde, só podem aplicar a hipnose, após comprovarem a devida capacitação técnica e respeitando a regulamentação ética da sua profissão. Isso acontece com os dentistas, médicos, psicólogos e, recentemente, fisioterapeutas. Ainda assim, dentistas e fisioterapeutas que fizerem uso da hipnose devem ter em foco o respectivo objetivo terapêutico da sua competência. Ou seja, não é da competência do dentista, ou do fisioterapeuta, diagnosticar ou tentar tratar depressão, transtorno bipolar, fobias, etc., Assim como não é da competência do psicólogo realizar clareamento dental, ou fortalecimento muscular.

A extrapolação dos limites da profissão torna passível a denuncia ao conselho e o profissional pode, dependendo da gravidade da infração, ser notificado, suspenso, ou desligado da profissão.

 Há uma regra bastante difundida nos USA sobre o uso da hipnose, que diz:

“Quem não sabe tratar o paciente sem hipnose, também não o saberá tratar com hipnose”.

 

4) Qual a formação necessária para ser hipnólogo?

Não há regulamentação específica, no país. Há até instrutor de hipnose que se vangloria por sequer ter feito curso de hipnose, antes de se tornar “professor”, além de se autointitular terapeuta. Resta ao público analisar quem são esses profissionais e verificar a sua formação. Infelizmente, esses casos só existem porque são financiados pelos que frequentam esses cursos e se submetem ao tratamento com essas pessoas.

A maioria do público é atraída por propaganda sensacionalista, mentirosa e até criminosa – quando é prometido ensinar a tratar doenças psicológicas em cursos de fim de semana. As pessoas têm que denunciar quando forem vítimas de promessas de cura (crime de curandeirismo) e de profissionais antiéticos, nem que o façam pelas redes sociais, pois não adianta apenas ignorá-los, e permitir que outras pessoas se tornem vítimas.

5) Para quais problemas a hipnose pode ser usada como tratamento?

Quando a aplicação da hipnose visa à promoção da saúde, ela pode ser utilizada em muitas situações, a maioria tenta elevar o bem estar e não necessariamente curar qualquer tipo de doença. Assim, ela pode ser usada desde o simples relaxamento para reduzir o estresse, até como coadjuvante no tratamento de câncer e de queimaduras.

A hipnose pode ser útil na realização de pequenas intervenções e na realização de exames no ambiente hospitalar: exames de sangue, tomografias, ressonâncias, tratamentos de queimaduras, fraturas, em todos esses casos a hipnose pode servir como auxiliar terapêutico. Já nos transtornos psicológicos – pânico, comportamento obsessivo, depressão, doenças psicossomáticas, etc. –  a hipnose deve ser usada de modo restrito, sendo pensada como uma ferramenta em consonância com o tratamento psicológico. Caso contrário, mostrará efeito paliativo de curto prazo, o que pode impedir a manifestação dos sintomas – por outro lado, os sintomas são elementos essenciais para se realizar a análise e a identificação das causas do transtornos em questão.

6) Quais os benefícios e em quanto tempo eles aparecem?

Não há como precisar, depende de cada pessoa e de cada situação. Sabe-se que o uso da hipnose torna as terapias mais breves por reduzir a manifestação dos sintomas, isto é, o uso da hipnose aumenta o bem estar subjetivo. Por outro, não manifestar os sintomas não garante que a pessoa adquiriu conhecimento para identificar os seus próprios comportamentos e manejá-los adequadamente, de forma assertiva.

Toda nova aprendizagem requer tempo e treinamento adequado. Se as situações da emissão do comportamento são mais restritas, a aprendizagem do seu manejo também serão. Se a dificuldade do paciente é de lidar com situações de perda, ou luto, pode-se usar dinâmicas como RPG, treino imaginário, hipnose para simular essas situações e acessar as emoções, mesmo que de maneira virtual. Note que a hipnose e as outras técnicas não são a terapia, mas facilitadores, ou ativadores comportamentais. Isso significa que o terapeuta precisa ter competência em manejar as emoções produzidas pela técnica, ou seja, se não souber tratar sem hipnose, pior ainda será com a hipnose.

Já no uso clínico-hospitalar é mais fácil e objetivo, pois a ação é pontual e visa controlar a sensibilidade a algum estimulo ambiental, seja inibindo a sensação dolorosa de procedimentos clínicos, ou diminuindo a ansiedade, ou incentivando a sensação de bem estar.

7) Existem quantos tipos de hipnose?

Apenas uma. O que muda é a forma de aplicação da técnica e as teorias de explicação. É comum aos profissionais com formação predominantemente biológica optarem pela abordagem clássica de indução. Nesse modelo, as sugestões são mais diretas, objetivas e autoritárias. Ele tem a vantagem de produzir efeito hipnótico mais rápido e “potente”, porém, por ser mais incisivo, aumentam as chances de não funcionar. Já os profissionais com formação em psicologia e psiquiatria, geralmente, preferem usar o modelo mais convidativo e indireto, que busca produzir a hipnose de maneira mais convidativa. É um método menos impositivo, porém, pode se mostrar mais lento, já que exige mais elaboração verbal do hipnólogo, e pode ser menos eficiente em controlar os comportamentos.

8) Quais as dúvidas mais frequentes dos pacientes ao iniciar o tratamento?

A maioria quer saber se vai ficar inconsciente, se vai dormir, se vai ter seus segredos revelados, coisas essas que não passam de mitos. A experiência de hipnose é como uma prática de meditação guiada. A sua atenção é conduzida pelas instruções do hipnólogo, e você pode sentir “se desligando” do ambiente físico e se projetar nos seus pensamentos, lembranças e sensações. A técnica pode ser usada para incentivar a buscar por novas soluções criativas para os problemas enfrentados e para atingir metas elaboradas na psicoterapia.

9) A união da hipnose com outras áreas da saúde é recente? Tem mostrado resultados?

A hipnose surgiu como uma técnica de intervenção para o tratamento de doenças psicossomáticas e das neuroses. Depois, passou a ser usada como “técnica de investigação experimental”, sendo a forma intervenção psicológica mais pesquisada da história.

Até o ano 2000, havia registro de mais de cem mil projetos de pesquisas sobre hipnose, e, nos últimos cinqüenta anos, ela foi tema de trabalhos publicados nas mais conceituadas revistas científicas, o que mostra sua importância para várias áreas do conhecimento humano.


Entrevistadora: Isabelle Leal, jornalista.

Entrevistado: Leon Vasconcelos é psicólogo clínico, especialista em hipnose e autor da tese de Mestrado: Saúde, Poder e Cura: a hipnose e a saúde coletiva, 2008. Criador do site Comportamento.Net, atende em Fortaleza, Ceará.

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About Leon Vasconcelos

Como estudante de psicologia fui quase doutrinado em teorias quânticas e metafísicas, mas o convívio com grandes mestres da medicina e biologia me conduziram a verdadeira ciência natural. Hoje, busco divulgar e ensinar a ciência do comportamento, focando o mínimo nos subjetivismos e o máximo no controle experimental.