Suposições sobre a Hipnose


Do livro “Conversando sobre Hipnose”, Wellington Zangari, Phd.

Como já dissemos, os cientistas têm várias formas de explicar a hipnose. Neste capítulo você terá acesso às explicações mais relevantes.

É importante saber que a ciência, de forma geral, se desenvolve testando as várias hipóteses existentes para explicar algum fenômeno. No caso da hipnose isso também ocorre. A teoria do magnetismo animal foi deixada de lado pêlos cientistas, que não encontraram provas da existência dessa força. Vimos no capítulo anterior que novas explicações foram sendo dadas à medida que novas descobertas eram feitas.

As teorias que vamos apresentar são as que permaneceram até hoje e continuam a ser testadas. É possível que uma delas se torne, no futuro, aceita pela maior parte dos cientistas, ou que uma nova teoria apareça e explique mais e melhor que todas as outras. Essa situação de indefinição quanto a qual teoria aceitar, ao contrário de deixar os cientistas desorientados e desanimados, faz com que se sintam mais motivados a buscar as respostas para suas dúvidas.

1. Teorias Psíquicas Subjetivistas

Já se acreditou que apenas pessoas com algum tipo de problema mental pudessem ser hipnotizadas. Essa teoria caiu por terra, pois os pesquisadores verificaram que os aspectos anormais que podem ocorrer durante a hipnose apenas ocorrem em indivíduos que já possuem algum problema psicológico. Por exemplo, se uma pessoa apresenta uma crise histérica durante a hipnose é porque ela já era histérica. Pessoas normais também podem ser hipnotizadas sem correr o risco de desenvolver nenhum tipo de doença mental.

Outros afirmam que a hipnose é uma condição especial do psiquismo, o que não significa que ela esteja relacionada à anormalidade. Diz-se que o estado de consciência chamado de hipnótico favorece a capacidade de receber e aceitar ordens. Essa capacidade é conhecida por sugestibilidade. Assim, a pessoa, durante o estado hipnótico, estaria mais aberta para receber sugestões dadas por outra pessoa, estando pronta para executar ordens.

Vista por alguns como sinal de doença e por outros como apenas mais um aspecto da mente humana, a hipnose sempre esteve associada à psicologia do sujeito que passa pela experiência. Levando-se em conta os aspectos psicológicos da pessoa hipnotizada, dispomos das seguintes teorias para explicar como a hipnose funciona:

Da Dissociação Da Personalidade

Imagine que sua mente esteja dividida em duas partes: o consciente e o inconsciente. O consciente diz respeito à parte da mente que está ligada ao meio ambiente, responsável pelo uso dos sentidos, pela locomoção, a inteligência e a razão, e o inconsciente ao lugar onde você armazena informações pessoais secretas e lembranças adormecidas. O consciente e o inconsciente estão ligados por uma passagem estreita por onde apenas algumas poucas informações transitam em certos momentos, como nos sonhos, por exemplo.

Segundo vários estudiosos, a hipnose pode ser entendida como um rompimento da ligação entre o inconsciente e o consciente. Esse desligamento, ou dissociação, faz com que o inconsciente venha à tona, provocando uma espécie de anulação do consciente, ou seja, o inconsciente impera em nossa mente. Assim, durante a hipnose a pessoa teria a capacidade de se lembrar de coisas de que geralmente não se lembra quando não está hipnotizado.

Para os pesquisadores que defendem essa teoria, o inconsciente é dotado de várias capacidades psíquicas mais desenvolvidas do que as capacidades conscientes. Não apenas a memória é extraordinária, mas também a capacidade imaginativa, a capacidade de raciocínio numérico etc. Muitos testes demonstraram que algumas pessoas normais, quando hipnotizadas, puderam resolver problemas matemáticos automaticamente, sem qualquer esforço. A resposta simplesmente lhes vinha à mente.

Da Exclusão Psíquica Relativa

Segundo esta teoria, nosso consciente age de acordo com a razão, portanto, seguindo a lógica de raciocínio que construímos. O inconsciente, no entanto, não segue essa mesma lógica, estando aberto para receber informações e sugestões sem a censura que faz parte do consciente. Sendo assim, a hipnose consistiria em um meio para fazer aflorar o inconsciente de uma pessoa, tornando-a apta a receber sugestões e tomar certas atitudes por determinação do hipnotizador, sem a censura que é própria do consciente.

Essa teoria tem o nome de Teoria da Exclusão Psíquica Relativa porque o consciente não fica totalmente excluído no processo da hipnose. Se uma determinada sugestão dada pelo hipnotizador contrariar normas éticas e morais profundamente arraigadas no consciente da pessoa hipnotizada, ela poderá não apenas deixar de aceitar a sugestão como também poderá sair do transe hipnótico.

Motivacional

Você, assim como a maior parte das pessoas, já deve ter visto alguma demonstração de hipnose, pelo menos na televisão, ou deve ter lido algo sobre como se comportam as pessoas hipnotizadas.

Segundo a Teoria Motivacional, por saber como deve se comportar durante a hipnose, a pessoa hipnotizada faz tudo o que está ao seu alcance para corresponder ao que se espera dela. Ela sabe, por exemplo, que deve responder às perguntas do hipnotizador, que deve fechar os olhos e não abri-los até que ele lhe dê tal ordem etc. Assim, a pessoa estaria cumprindo o seu papel, desempenhando uma função que se espera que desempenhe. Poderíamos dizer que essa conduta está relacionada à atitude de submissão à atribuição de papéis sociais e de bom desempenho de funções que nos são socialmente delegadas. Trocando em miúdos: segundo a Teoria Motivacional, as pessoas reagem à hipnose da forma que a sociedade espera que elas reajam.

Psicanalítica

Certamente, você já ouviu falar em Freud. Diz-se, popularmente, que Freud explica tudo. E a hipnose? Freud também explica, e o faz utilizando a psicanálise, uma linha de análise desenvolvida por ele.

De acordo com a Teoria Psicanalíticâ de Freud, o hipnotizador seria o representante das leis, aquele que rege a vida das pessoas, impondo-lhe limites e possibilidades. Poder-se-ia dizer que o hipnotizador representa o pai, tradicionalmente conhecido como quem disciplina os filhos. Levando isto em conta, durante a hipnose, a pessoa se comportaria como uma criança frente ao pai todo-poderoso, submetendo-se passivamente às suas imposições e perdendo sua própria capacidade de decisão. Porém, de acordo com Freud, a pessoa hipnotizada tem a capacidade de perceber que a hipnose é um faz-de-conta que pode terminar a qualquer momento, dependendo de sua decisão em resistir a ela.

Todas essas teorias tentam, portanto, utilizar conceitos psicológicos para explicar as particularidades da hipnose. O relacionamento entre o hipnotizador e o hipnotizado, o estado mental do sujeito, as motivações que deram força às ordens dadas pelo hipnotizador, as vivências infantis que poderiam influenciar na submissão do sujeito e a necessidade social de cumprir papéis estabelecidos.

2. Teorias psicossomáticas

As teorias psicossomáticas partem da idéia de que somos um conjunto de corpo e mente. Em contato com o meio ambiente e com as pessoas essa unidade mente/corpo sofre alterações, de formas diferentes, de pessoa para pessoa. Mas, se sofrêssemos as agressões do meio-ambiente e não tivéssemos proteção estaríamos correndo sério risco. Na verdade, temos a capacidade de manter o equilíbrio entre mente e corpo e em relação às alterações do meio ambiente. Essa capacidade recebe o nome de homeostase, ou seja, tendência a manter a estabilidade interna.

Os pesquisadores verificaram que há um profundo relacionamento entre os aspectos psicológicos e orgânicos, um afeta o outro de tal forma que é impossível estudar um sistema sem estudar o outro. Talvez não se trate de dois sistemas, mas de apenas um. Quando separamos mente e corpo, estamos comentendo um erro. Entretanto, a divisão é feita para que possamos estudar melhor as características em separado. Assim, podemos ter uma visão de conjunto mais aproximada do que somos.

Vejamos alguns exemplos de como corpo e mente podem ser compreendidos como um só sistema. Quando temos medo, que é um sentimento, nosso corpo se transforma. Nosso coração dispara, nossa respiração aumenta a frequência, nossa pupila se dilata e ficamos mais alertas quanto aos sons e cheiros. O medo, portanto, não pode ser compreendido apenas em seu aspecto psicológico. Outro exemplo: você já viu alguém envergonhado? Como você soube que essa pessoa estava envergonhada? Claro, ela fica “vermelha” e às vezes se encolhe, como se quisesse sumir. Devemos sempre lembrar que cada um dos aspectos que consideramos psicológicos está relacionado com transformações corporais.

Na hipnose talvez ocorra a mesma coisa. As sugestões ou ordens dadas pelo hipnotizador provocam transformações no corpo/mente do hipnotizado. As palavras que são ditas “transformam” a pessoa que está sendo hipnotizada ou que já está sob o efeito da hipnose. Mas isso não ocorre apenas na hipnose. Como vimos nos exemplos, em todas as situações de nossa vida as palavras e as idéias estão nos transformando. Parece, no entanto, que a situação hipnótica é propícia para que a capacidade de transformação interna funcione. A pessoa que quer ser hipnotizada está predisposta a utilizar essa capacidade de concentração e sugestibilidade. Ela obedecerá mais facilmente, por exemplo, às ordens como: “Durma… durma… durma… você está ouvindo a minha voz e os outros sons não lhe incomodam… relaxe… relaxe… você agora está se sentindo melhor… relaxe…”.

O que parece ocorrer na hipnose, portanto, é uma ampliação da sugestibilidade que todos nós já temos.

3. Teoria Reflexológica

A Teoria Reflexológica da hipnose está relacionada aos estudos realizados por Ivan Petrovit Pavlov. São famosos os experimentos de reflexos condicionados realizados por Pavlov em cães. O cãozinho da pesquisa ficava preso em uma mesa. O aparelho media a quantidade de saliva que ele produzia em diferentes momentos do dia, principalmente durante os que antecediam as refeições. Nos primeiros dias, sempre que o cão era alimentado, uma campainha era tocada. Os pesquisadores mediram a quantidade de saliva produzida pelo animal nesse período. Na próxima fase da pesquisa, os investigadores apenas tocavam a campainha sem dar o alimento. O que acontecia ? O cão produzia a mesma quantidade de saliva que nos momentos em que a comida lhe era apresentada. Pavlov chamou esse fenômeno de reflexo condicionado, ou seja, uma reação do organismo que não nasceu com o animal, mas que foi desenvolvida artificialmente, foi “aprendida”.

Existem os reflexos incondicionados, que são aqueles com os quais já nascemos. Por exemplo, piscar quando algo vem em direção aos nossos olhos, retirar a mão quando percebemos que algo está quente ou proteger a cabeça quando caímos. Tudo isso é feito automaticamente, sem que precisemos pensar para agir. Todos os animais apresentam reflexos condicionados e incondicionados. Eles nos ajudam a sobreviver à medida que são ações importantes para nossa proteção.

Outro conceito importante da teoria reflexológica para a compreensão de como ela se aplica à hipnose é o de estados de fase. Nosso cérebro é constituído de várias partes. A mais nobre e importante delas é o córtex. Entre outras coisas, o córtex cerebral é o responsável pela nossa atenção, pêlos nossos sentidos, pensamentos e vontade. Imagine como se ele fosse um conjunto de lampadazinhas. Quanto mais lampadazinhas acesas existirem, mas iluminado ficará o ambiente. Quando mais excitado estiver o córtex, melhor ele desempenhará suas funções. Os pesquisadores descobriram que essa excitação muda constantemente, ou seja, é como se houvesse sempre um número diferente de lampadazinhas acesas. Assim, nossa capacidade de atenção, vontade, sensação e pensamento é variável. A essa variação é que os cientistas chamam estados de fase. Assim, por exemplo, entre a vigília (nome dado ao estado em que estamos acordados, despertos) e o sono, existe uma mudança de estado de fase. O mesmo acontece ao passarmos da vigília para o estado hipnótico.

Os cientistas que aceitam a teoria reflexológica afirmam que a pessoa, durante a hipnose, perde parte da excitação cortical, ou seja, muitas lampadazinhas, se apagam. Assim, ela perde parte de sua capacidade cerebral, já que apenas algumas partes dele estariam funcionando plenamente. As demais regiões ficariam inibidas. O papel da palavra é muito importante nesse processo, porque ela irá determinar que regiões do cérebro funcionarão mais ou menos. Por exemplo, se o hipnotizador ordena à pessoa hipnotizada que ouça apenas a voz dele, o cérebro do hipnotizado inibirá os demais sons e não os perceberá. Se, por outro lado, o hipnotizador ordenar que o hipnotizado não sinta o braço esquerdo, o cérebro do hipnotizado não registrará alfinetadas, por exemplo, no membro indicado.

É bom que você saiba que mesmo os pesquisadores não têm certeza de que esta teoria, como as demais, esteja completamente correta. Mas todas elas representam pistas importantes para desvendar os mistérios que ainda cercam a hipnose. Os exemplos dados foram retirados de experiências reais. Realmente há pessoas que quando hipnotizadas não sentem as alfinetadas no braço indicado, por exemplo. Mas é ainda cedo para afirmar com certeza até que ponto a sugestão atua no córtex da pessoa hipnotizada. Este é mais um dos enigmas que apenas muita pesquisa e o tempo poderão responder.

Zangari, W., Machado, F. R. Conversando sobre hipnose. São Paulo: Paulinas