Leon Vasconcelos/ Agosto 5, 2010/ Publicações

Condicionamento Psicofisiológico

O condicionamento se tornou um termo comum entre a população, muito embora a visão popular sobre este processo o compreenda apenas como uma associação simples entre eventos, ou comportamentos. No entanto, o condicionamento não se restringe a isso, ele pode, dentre outras coisas,  criar um vínculo entre  o estresse emocional e reações orgânicas autônomas, levando à predisposição para o surgimento de sintomas e de doenças. Vejamos como isso é possível, logo abaixo:

O Condicionamento Reflexo Básico:

As pesquisas do fisiologiasta russo, Ivan Pavlov, revelaram a possibilidade de que um Reflexo Inato do organismo poderia ser provocado pela apresentação um Objeto Neutro, contanto que esse objeto neutro fosse várias vezes emparelhado durante a reação reflexa normal do organismo.

reflexo condicionado

Quando o cão faminto se depara com o cheiro ou a visão de carne o Reflexo Incondicionado (Comportamento Instintivo) provoca a produção de saliva. Para os mamíferos, o leite materno seria o Estímulo Incondicionado Básico, que provoca uma reação inata do organismo fazendo os filhotes sugarem.

Pavlov descobriu que se um estímulo que não provocava nenhuma reação fisiológica anterior (como uma luz, um sino, um toque, etc) fosse emparelhado com a apresentação do alimento, após algumas repetições, o estímulo que antes era neutro, passaria a provocar a produção de saliva, se tornando, desse modo, um Estímulo Condicionado. Esta descoberta ele chamou de Condicionamento Reflexo.

Não só eventos, mas o discurso sugestivo que induz ameaças, geralmente, provenientes de pessoas próximas e com certa autoridade, pode também se tornar um meio de condicionamento do comportamento, conforme ilustra a figura abaixo:

cond fobia

Condicionamento, Saúde e Doenças

Muitos anos se passaram desde a descoberta de Pavlov, novos estudos, mais detalhados, descobriram que o poder do condicionamento ia muito além do salivar de cachorros, após escutarem o “dingombel de sinos”. A aprendizagem poderia afetar toda a fisiologia do organismo, conforme demonstra o experimento, abaixo:

pavlov2

Um cão é isolado em  laboratório e tem seus batimentos cardíacos monitorados. Em determinado momento, os experimentadores liberam no soro, conectado ao cachorro, uma dose de adrenalina. Como ela compõe um dos hormônios do estresse, a resposta natural que ela provoca é a constrição dos vasos sanguíneos e aumento dos batimentos cardíacos e da pressão arterial (hipertensão).

Para testar a “força do condicionamento” (ou seja, da aprendizagem condicionada) sobre as respostas naturais do organismo, os cientistas realizaram o seguinte experimento:

1- Administram Acetilcolina na corrente sanguínea de um cão, repetidas vezes, ao mesmo tempo que uma sirene era acionada. A acetilcolina provoca uma resposta natural de relaxamento e hipotensão, justamente, o oposto da adrenalina. Após o condicionamento, a sirene se torna um Estímulo Condicionado, ou seja, somente o seu toque faz com que os batimentos cardíacos e a pressão diminuam, sem que seja necessário injetar a acetilcolina.

2 – Após condicionado, o cientistas tocaram o sino, a pressão caiu devido ao efeito do condicionamento, e então, eles injetaram adrenalina!

3- O resultado foi marcante, para a surpresa de todos. Mesmo com a injeção de adrenalina, a pressão arterial continuou baixa, mostrando que o condicionamento tinha o poder de suprimir a ação do próprio hormônio.

Os experimentos revelaram que a aprendizagem pode exercer uma influência tão forte capaz de modificar as respostas fisiológicas naturais do organismo.

Padrões de Condicionamento

Na nossa vida cotidiana estamos sujeitos a condicionamentos e contra-condicionamentos constantemente, pois nos interação com o ambiente é dinâmica e multivariada. Dependendo do modo como os estímulos são apresentados, podemos rapidamente modificar nosso comportamento em resposta às mudanças, ou também, nos tornar escravos dos nossos hábitos e comportamentos condicionados.

Reforços Contínuos

Os comportamento que são reforçados continuamente são mais fáceis de serem mudados. Temos como exemplo desse tipo de condicionamento, as máquinas de venda automática de refrigerantes. Você coloca o dinheiro e ela deve liberar o refrigerante, se isso não acontecer, provavelmente, você não ficará passivo, buscará falar com algum responsável, balançará a máquina e dificilmente colocará mais dinheiro. O mesmo vale para o caixa eletrônico do seu banco que não liberou as cédulas!

Há situações um pouco diferentes de reforçamento continuo que, embora o comportamento continue sendo reforçado continuamente, o tempo exerce influência sobre o comportamento. É o caso do elevador que você aperta o botão e espera algum tempo para que ele chegue ao seu andar, ou esperar o ônibus, ou táxi. Este padrão de latência também acontece com o salário, você trabalha hoje para receber o pagamento depois de algum tempo.

Nesses casos, você continua sendo reforçado continuamente, mas com um atraso significativo. Se por acaso, o elevador não chegar em 10 minutos, ou seu salário não for pavo depois de trinta, ou quarenta dias, você não ficará passivo e partirá para luta (a tensão/ansiedade  se instala devido a uma aprendizagem anterior na qual o reforço não foi apresentado no tempo “programado ou aprendido”. Os hormônios adrenalina e cortisol são efeitos secundários concomitantes a reação de luta.

Reforços Aleatórios

Por outro lado, há comportamentos que são extremamente resistentes a mudanças. Eles são, em geral, mantidos por esquemas de reforçamento aleatório, sem que se possa prever o momento exato que será apresentado o reforço (recompensa).

Os exemplos mais conhecido deste tipo de condicionamento são os dos jogos de azar. Enquanto a máquina de refrigerantes, ou o caixa eletrônico podem fazer você “virar o barraco” para obter o seu reforçador (refrigerante ou dinheiro), a máquina de caças-níquéis, os jogos de baralho, ou a Mega-Sena, funcionam de modo bem diferente. Eles tem a capacidade de tomar o dinheiro de milhões de pessoas, anos após anos, sem que elas tenham qualquer atitude de rebeldia, mudança de comportamento, pois elas estão cronicamente condicionadas sem que haja um indicador temporal que sinalize o momento de serem recompensadas.

Condicionamento e Estresse

psicologia estresse1

Infelizmente, boa parte dos casos de alterações na saúde por disfunções orgânicas, causadas pelo estresse, são reforçadas também de modo aleatório, o que deixa as pessoas muito resistente às mudanças.

A forma como isso acontece é bem simples, e segue a mesma lógica de raciocínio dos eventos citados anteriormente:

  • O mecanismo natural do estresse prepara o ser humano para ameaças reais, coisas que assustavam os homens no passado, como o ataque de um animal selvagem, ou de invasores. Mas é o mecanismo de condicionamento que acaba por transpor para outros objetos e eventos neutros a capacidade de provocar uma resposta hormonal. Desse modo, o ambiente passa a estimular a liberação de hormônios, repetidas vezes por dia, frente a falsas ameaças.

  • O estresse crônico traz graves consequências para a saúde, pois hormônios da ansiedade, além de fazer seu corpo queimar as proteínas e acumular gordura, também deprime o sistema imunológico, deixando seu organismo mais vulnerável a doenças e infecções e diminui a velocidade de recuperação.

  • O efeito desses hormônios é sistêmico, ou seja, afeta todo o organismo. As terapias medicamentosas, ou físicas,  padronizadas da medicina convencional, não conseguem dar conta sozinhas do recado, pois há um padrão de comportamento que foi aprendido e que provoca as respostas involuntárias do seu organismo (lembre do experimento com o cão, a injeção de adrenalina não surtiu efeito, após o animal ser condicionado pela sirene).

  • Os remédios são composto de substâncias que tentam bloquear o efeito desses hormônios, ou impedir a degradação de substâncias benéficas, mas enquanto o comportamento persistir, os sintomas serão apenas adiados pelo uso dos medicamentos, o que pode agravar a situação, pois não modifica os condicionamentos que estão na base da disfunção, além de causar dependência desses medicamentos.

  • As pausas breves, ou as pequenas mudanças na vida, podem não ser suficientes para modificar as respostas condicionadas do seu organismo, justamente, por elas terem sido reforçadas de modo aleatório. Por isso, há necessidade de avaliação e intervenção psicológica eficientes, para analisar e modificar as respostas aprendidas, produzindo um novo padrão de comportamento que seja funcional.

A quantidade de estimulação que recebemos diariamente em nossas vidas é tão grande, e sem uma ordem pre-estabelecida, que contribui para a generalização de uma gama de comportamentos. Os próprios pacientes tem dificuldade de saber quando exatamente começaram os seus sintomas e o que os mantém. A análise e o entendimento do próprio comportamento é o primeiro passo para o desenvolvimento de mudanças na terapia.

 

Fonte de Consulta:

http://www.cerebromente.org.br/n09/mente/placebo1.htm

Leon Vasconcelos Lopes
Terapeuta Analítico Comportamental
criador do site: www.comportamento.net

Share this Post