Regressão, Fantasias e Terapia

 

Para que serve a Regressão de Memória? A Regressão de Vidas Passadas – TVP pode tratar algum problema psicológico?

Estas são dúvidas frequentes sobre a aplicação terapêutica da hipnose. Para esclarecer este assunto, vou destacar dois principais temas: 1) a validade científica da regressão de memória, e, 2) A sua efetividade como tratamento de transtornos psicológicos.

Inicialmente, vamos distinguir os dois tipos básicos de regressão de memória:

1) A regressão a lembranças da infância, e;

2) A regressão a memórias de vidas passadas ou futuras.

Validação Científica

Validar cientificamente significa “testar”, “por a prova”, controlando outras influências que possam interferir nos resultados e tentar descobrir se um determinado comportamento pode ser controlado por um tipo específico de procedimento. Coisa extremamente difícil de se conseguir quando se trata de comportamento verbal em humanos.

Do modo em geral, tanto os relatos da regressão a memórias da infância, quanto os da regressão a memórias de vidas passadas, não são dignos de confiança (no sentido de atestarem uma verdade). Para se obter lembranças de acontecimentos importantes, como nos casos de sequestro, ou de reconhecimento de suspeitos, as Sociedades Americana e Européia de Psicologia indicam a “Entrevista Cognitiva” – um tipo de entrevista especialmente elaborada com objetivo de minimizar os efeitos da influência sugestiva do entrevistador sobre o entrevistado.

Tal preocupação acontece porque o uso da hipnose (usada na regressão) facilita a contaminação das lembranças verdadeiras com fantasia, fenômeno chamado de “confabulação”.

Uma das explicações para a confabulação é o efeito sugestivo indireto que visa atender às expectativas do hipnotizador. Quem nunca ouviu a frase da sua mãe ou pai perguntando: “Você vai para a aula, não vai?” Implícito no tom a ordem: “Você vai!”

“Atender as expectativas do hipnotizador” significa algo bem sutil, sugestões indiretas que podem fazer parte até mesmo do próprio ambiente. Por exemplo, quando a hipnose é usada por um psicanalista, o paciente pode entender, mesmo que indiretamente, que a recordação de alguma situação incestuosa seja algo esperado, já que para a psicanálise, isso confirmaria o Complexo de Édipo, um dos princípios básico de sua teoria; Se por outro lado, ele se consultar com um terapeuta de vidas passadas, as sugestões implícitas neste contexto, reforçariam as explicações de que seus problemas atuais podem ter causas em alguma situação traumática de uma outra vida, o que está de acordo com as expectativas do paciente, do terapeuta, ou de ambos; Se o paciente consultar um ufologista, a recordação de uma abdução por extraterrestres é possível e fará todo o sentido.

Essas sugestões sutis, contextuais e indiretas, também devem ser levadas em consideração, já que toda memória passa sempre por um processo de reconstrução contextual.

Deliberadamente, ou não, o fato é que os terapeutas acabam explicando, mesmo que indiretamente, o funcionamento da sua terapia e, ao fazerem isso, dão sugestões indiretas, mas poderosas, que podem induzir os pacientes mais sugestionáveis a terem falsas recordações que correspondam as expectativas da terapia.

O poder sutil das sugestões na construção de falsas memórias durante uma relação terapeuta-paciente, já objeto de pesquisas experimentais em vários estudos. Um dos experimentos que ficou mais conhecido, foi realizado pela psicóloga americana, Dr.a Ellisabeth Loftus.

Ela pediu a vários psicoterapeutas que incluíssem a pergunta:

“Você já se perdeu alguma vez em um shopping quando era criança?”

Durante as entrevista normais com os pacientes. Após algumas semanas, uma significativa parcela dos paciente passou a ter recordações vívidas do incidente em questão. Para eles a história se tornou real, mas de fato, ela nunca aconteceu.

Por esta razão, novas abordagens terapêuticas passaram a tratar os relatos com certa reserva, buscando compreender as crenças e sentimentos  que afetam os pacientes, independente da veracidade ou não dos seus relatos. Ou seja, se busca compreender que tipos de comportamento o paciente desenvolveu por acreditar em X, e como isso está afetando sua vida, independente de se preocupar com a veracidade, ou não, de X.

Efetividade Clínica das Regressões de Memória

Agora surge a seguinte pergunta:

“Será que mesmo sabendo que as lembranças podem ser fantasias, ainda assim, esse tipo de terapia poderia ser eficiente para o tratamento de alguns transtornos psicológicos?”

A resposta de uma boa parte dos pesquisadores que acredita que sim!

Para exemplificar essa linha de pensamento, vou descrever algumas descobertas que aconteceram durante o tratamento de veteranos da Segunda Guerra Mundial, descritas no livro de William Sargant, um psiquiatra inglês que trabalhou para o exército britânico e para CIA, realizando experimentos bizarros em humanos com o objetivo de desenvolver técnicas de “lavagem cerebral”. *

Durante o período a Segunda Guerra Mundial, houve um considerável aumento na demanda por tratamentos psicológicos que levou a investimentos nessa área de pesquisa. Estudos realizadas na Grã-Bretanha com o uso de métodos físicos produziram resultados inegáveis no tratamento de neuroses de guerra agudas em civis e militares.

No início da guerra, durante o tratamento de neuroses agudas resultantes das batalhas na Inglaterra, tornara-se óbvio o valor de certas drogas para ajudar o paciente a descarregar as emoções reprimidas das terríveis experiências que lhe haviam causado o colapso mental.

Uma droga hipnótica era administrada a um paciente cuidadosamente e, quando começava a ter efeito, esforçava-se para fazê-lo reviver o episódio que lhe causara o colapso. Algumas vezes os episódios, haviam sido mentalmente suprimidos e era preciso trazer outra vez sua lembrança à superfície. Outras vezes os episódios eram totalmente lembrados, mas as fortes emoções originariamente ligadas a eles haviam sido reprimidas. A melhora do estado nervoso do paciente era atribuída à descarga das emoções originais. Descobriu-se também que as emoções mais proveitosamente descarregadas – ou “ab-reagidas”– eram aquelas de medo ou raiva; pouco se poderia conseguir forçando, digamos, um paciente melancólico a chorar ou tornar-se mais deprimido.

Descobriu-se que algumas vezes se poderia restaurar a saúde mental do paciente não por fazê-lo reviver uma experiência traumática particular, mas por incitar nele emoções fortes não diretamente ligadas àquela experiência e ajudá-lo a descarregá-las. Assim, em alguns casos de neurose aguda adquirida nas batalhas da Normandia, podiam ser sugeridas a um paciente, sob a ação das drogas, situações inteiramente imaginárias para “ab-reagir” emoções de medo e raiva, embora tais situações estivessem de certo modo relacionadas com as experiências que vivera. Descobriu-se que resultados muito melhores podiam ser obtidos levando-se o paciente a emocionar-se com acontecimentos imaginários do que com a lembrança de acontecimentos factuais. Por exemplo, o paciente que tivesse sofrido colapso depois de uma batalha de tanques poderia ser levado a crer, sob o efeito de drogas, que se encontrava num tanque em chamas e precisava lutar para escapar. Embora essa situação nunca tivesse realmente ocorrido, o medo de que acontecesse seria uma das causas de seu eventual colapso.

Essas explosões de medo e cólera, deliberadamente provocadas e estimuladas num crescendo pelo terapeuta, freqüentemente seriam seguidas de súbito colapso emocional. O paciente cairia inerte no divã – em conseqüência da descarga emocional, não da droga – mas logo se reanimaria. Então, freqüentemente acontecia que ele comunicava um dramático desaparecimento de muitos sintomas nervosos. Se, todavia, pouca emoção fora libertada e se ele apenas tivera reavivada a lembrança de algum episódio terrível, pouco benefício podia esperar-se. Entretanto, uma lembrança implantada artificialmente poderia criar uma descarga emocional maior do que a real e provocar os efeitos fisiológicos necessários ao alívio psicológico. Uma técnica de estimular deliberadamente raiva e medo sob drogas até prostrar o paciente foi finalmente aperfeiçoada com a ajuda das descobertas de Pavlov. Para isso contribuíram especialmente algumas observações que Pavlov fez sobre o comportamento de seus cães, depois que quase se afogaram na inundação de Leningrado, em 1924.

Uma tarde, quando essa técnica estava sendo aplicada às vítimas mais normais de duras batalhas ou da tensão dos bombardeios – ela era menos útil no tratamento de neuróticos crônicos – visitei a casa de meu pai e tomei um de seus livros ao acaso. Era o “Diário” de John Wesley, de 1739-40.

Essas evidências experimentais sugerem que, dependendo do tipo de personalidade do paciente, intervenções que levam as estados emocionais intensos, mesmo produzidos por fantasias, poderiam facilitar a modificação de crenças e de comportamentos disfuncionais. Fato que supostamente explicaria os resultados positivos obtidos a partir da Terapia de Regressão a Vidas Passadas – TVP.

De volta ao ambiente clínico especializado, sabemos  que o uso de estados emocionais intensificados somente é indicado para certos tipos de pessoas com transtornos e personalidades bem específicas. Na maioria dos casos, as mudanças no comportamento são obtidas com análise e compreensão das vivência e a construção de novos sentidos, produzidos pelo conhecimento sobre si mesmo.

Não há evidências clínicas que deem suporte ao uso das técnicas experimentais de William Sargant. Há que se destacar que o Dr. Sargant é lembrado mais pelas suas experiências bizarras executadas sob tutela militar, do que como um modelo de clínico responsável e ético.

O que podemos tirar de proveito das experiências de William Sargant é uma precária evidência de que seria possível tratar Transtorno de Estresse Pós Traumático – TEPT através da técnicas que estimulem emocionalmente o  paciente, durante estados alterados de consciência.

Se esses conteúdos são lembrados, fantasiados, confabulações, relativos ao passado, ou ao futuro, isso pouco importa, já que tais conteúdos não são dignos de confiança como verdade narrativa.

Porém, o risco de submeter alguém, já fragilizado, a vivenciar ainda mais pavor em uma situação imaginaria, e sem garantias clínicas que compensem os riscos, é algo extremamente questionável eticamente.

(*Essas explicações são citadas em seu livro “A Luta pela Mente”, em que ele compara suas descobertas com os experimentos de Pavlov, realizados em cães, e com técnicas de doutrinação das religiões e da política).

Sugestão de vídeo: Falsas Memórias, com Michael Yapko.

Leon Vasconcelos Lopes
www.comportamento.net

psicólogo, especialista em hipnose clínica

www.comportamento.net

One thought on “Regressão, Fantasias e Terapia”

  1. Monex diz:

    os pacientes mencionados neste livro autorizaram-me a escrever a hist ria real de ambos. e finalmente quero agradecer a todos os meus pacientes e participantes de palestras e oficinas que compartilharam suas vidas comigo.

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