Leon Vasconcelos/ Agosto 22, 2011/ Publicações/ 0 comments

Comportamento.Net_350Buscar compreender a estrutura da mente humana e o porquê do comportamento das pessoas é uma idéia que instiga os seres humanos, desde o início da nossa civilização.

Uma das primeiras tentativas de compreensão racional do comportamento humano surgiu na Grécia Antiga, milhares de anos antes de Cristo. E por mais que pareça antiga, muitas das idéias iniciais fertilizaram o terreno para as questões que a ciência investigaria, dois mil anos depois.

Dentre as concepções filosóficas que moldaram a percepção dos pesquisadores, há duas que podem ilustrar a complexa natureza do conhecimento humano e a busca pela “verdade”.

Começaremos com o ponto de vista de Immanuel Kant (1724-1804), pois suas idéias se tornaram um pilar para as concepções intelectuais ocidentais no século XVIII.

Kant defendia que o conhecimento é uma invenção de um organismo ativo que interage com o meio ambiente ao seu redor. Essa posição vai conceber uma visão construtivista da realidade, ou seja, a mente humana cria suas representações da realidade, como um subproduto das interações com o meio ambiente.

Em oposição à Kant, estava a proposta de John Locke (1602-1704), o criador do empirismo britânico, que defendia que o conhecimento seria resultado de uma “impressão” do mundo externo numa mente humana, semelhante ao escrever em uma página em branco(1).

Notemos que Locke é mais antigo que Kant, embora seja a filosofia de Locke que vai ter uma influência marcante na origem do conhecimento científico, que nessa época dá os seus passos iniciais.

Para Locke, as imagens mentais são “representações” de algo fora do organismo, enquanto para Kant essas mesmas imagens mentais são, basicamente, “criações de uma interação com o ambiente“.

Agora, podemos fazer nossa ponte para a prática da clínica comportamental.

Conhecimentos que buscaram compreender a mente humana, a partir da perspectiva de Locke, como a Psicanálise Clássica, foram construídos em torno da crença de que a “verdade objetiva” pode ser descoberta sobre a realidade (O mapa é o Território). A descoberta dessa “verdade objetiva” e, portanto, certa, propiciaria a melhora da saúde.

Você já deve ter ouvido falar na “teoria do trauma“, a proposta que busca fazer uma regressão hipnótica para encontrar, no passado, a causa de algum transtorno comportamental do presente.

De encontro a essa perspectiva clássica, adotada desde o surgimento da ciência e que persiste até hoje no saber popular, vem a visão construtivista e mais recente, aquela provenientes das idéias de Kant.

Na prática clínica, adotar uma postura construtivista significa dizer que uma boa intervenção psicológica gera suas próprias verdades. Ou seja, os terapeutas objetivistas acreditam poder descobrir o que realmente aconteceu no passado, enquanto os terapeutas construtivistas estão mais interessados na “história”, como uma chave para a narrativa que está sendo elaborada e que dará aos eventos presentes o seu significado (O mapa não é o território).

Assim, se uma paciente relata um sonho incestuoso e em seguida põe em dúvida a sua veracidade, a ênfase não estaria em descobrir se o incesto ocorreu, mas nas verdades inerentes ao sonho, nas condições correlatas que ela experimentou na sua vida que poderiam conduzir a tal sonho, etc.. Desse modo, a intervenção terapêutica que envolve a recuperação de memórias geraria suas próprias verdades, elaborações presentes e atuais.

Experiências relativamente simples, evidenciam o papel construtivista da nossa memória.

Realize hoje uma autobiografia contanto detalhes marcantes da sua vida, guarde esse material selado em um envelope. Repita o mesmo procedimento, cintado anos mais tarde. Abra, então, o envelope antigo e compare os dois relatos. Você perceberá que, muito embora alguns fatos possa se repetir nas duas autobiografias, a forma de contar os mesmos eventos terá sido mudada. Alguns eventos terão sido esquecidos e outros lembrados.

Se estamos sempre reelaborando nossas próprias auto-compreensões e memórias, independente de qualquer terapia, então, qual a razão para buscar numa “verdade objetiva” e imutável do passado como justificativa de transtornos presentes?

A compreensão do momento atual e de suas interrelações funcionais se torna uma valiosa ferramenta para a modificação do comportamento. É no presente que se encontram as razões do passado – as dores e angústias –  e também,  as expectativas e motivações para um futuro melhor.

Alguém que diz estar “preso ao passado”, não percebe a liberdade do presente e vive conforme a tradição de John Locke, acreditando numa verdade objetiva e imutável sobre a realidade.

Referências:
(1) – Kohlenberg, R. (1991) Psicoterapia Analítica Funcional: criando
relações terapeuticas intensas e curativas. Esetec, São Paulo.

Leon Vasconcelos Lopes
22 – Agosto – 2011

Share this Post

Leave a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>
*
*