Hipnose como prova judicial?

Se chama “hipnose forense” o procedimento que é realizado por um perito médico, ou psicólogo, afim de que uma pessoa possa, por exemplo, lembrar do rosto de assaltantes, ou da placa do carro que os bandidos usaram. No entanto, somente esta informação pode dar a impressão de que a hipnose funciona de modo equivalente a um “soro da verdade”, mas o que acontece é justamente o contrário!

Usar hipnose é antes de tudo usar a imaginação para criar imagens, sons, cheiros, gostos, ou demais sensações, sendo esses fenômenos conhecido como capacidade ideosensorial. É devido a essa capacidade que o hipnotizador de palco faz o hipnotizado comer uma cebola achando que é uma maçã!

O mesmo procedimento pode ser usado para a pessoa sentir um braço mais leve, ou pesado, sentir que as mãos estão coladas, ou deixar o corpo rígido e ser colocada apoiada com os pé e pescoço entre duas cadeiras. Nesses casos, os fenômenos são chamados de ideomotores. Isto é, o uso sa imaginação para sugerir uma resposta motora.

Da mesma forma que a hipnose faz uso das sugestões ideosensoriais e ideomotoras, há também as sugestões que são direcionadas para os processos mentais, ou cognitivos. Neste grupo estão incluídas as lembranças, o raciocínio, e a criatividade. E é aqui que a coisa complica!

Quando um médico usa sugestão ideosensorial para convencer o paciente de que ele não sentirá dor, no momento em que ele fizer a incisão com o bisturi, todos aqueles que não estão hipnotizados podem comprovar que, de fato, o médico fez a cirurgia. A prova factual será o sangue e o ferimento em si.

Mas no caso de que o paciente ser questionado para lembrar o número de uma placa, ou do rosto de um bandido, não há qualquer garantia de que a lembrança seja factual, ou simplesmente uma criação, ou confusão da memória. E é justamente por isso que os relatos obtidos a partir da hipnose não são considerados provas, mas, apenas, indícios, ou pistas, que devem ser averiguadas pela polícia.

Se, por exemplo, o número lembrado coincidir com a placa do carro de um suspeito, já envolvido em outros crimes, a polícia buscará investigar o suspeito e assim por diante. Por isso, um rosto, uma placa, ou um dado qualquer derivado de hipnose, não terá qualquer peso, ou privilégio, a mais do que o relato obtido sem a hipnose.

O fato da hipnose favorecer a capacidade criativa e a formação de falsas lembranças fizeram com que a Sociedade de Psicologia Americana sugerisse o uso da “entrevista cognitiva” em circunstâncias forenses, pois esta técnica fora criada buscando minimizar os efeitos da sugestão sobre as testemunhas.

E quanto a suposta capacidade de “hipermnésia”, ou seja, de que com a hipnose as pessoas seriam capazes de ter uma super memória e lembrar de coisas há muito esquecidas? Pesquisas contestaram o mito da hipermnésia.

Em estudos comparativos não houve diferenças significativas entre as lembranças de pessoas que foram hipnotizadas e questionadas sobre dados de sua infância, comparadaas com pessoas que passaram apenas por uma sessão de relaxamento.

As diferenças só aparecem quando os dados solicitados não podem ser checados por fontes indenpentes. Por exemplo, se uma pessoa é hipnotizada e lhe é perguntado qual a cor da roupa que ela usou no seu aniversário de 12 anos, o hipnotizado pode responder com toda segurança: “verde”. Mas uma foto batida no aniversário contradiz o relato e mostra que a cor da roupa era “branca”. Se não houver uma fonte externa e independente, não haverá como saber ao certo a resposta para tal pergunta.

Portanto, se a pessoa lembrar durante a hipnose que foi molestada sexualmente durante a infância, seja por um parente, ou por um extraterreste (abdução), mas não houver qualquer evidência externa, não há como distinguir se se trata de uma lembrança de algo factual, ou de algo ficcional. É por isso que as psicoterapias não são usadas para a busca de “verdades”, mas para ajudar os pacientes a se compreenderem melhor e aperfeiçoar suas habilidades racionais, emocionais e comportamentais.

Por isso, lembre-se: memória não funciona como a gravação de uma fita de vídeo e a hipnose não funciona como video-cassete!

Leon Vasconcelos, Psy Ms.
psicólogo especialista em hipnoterapia
e modificação do comportamento

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