Leon Vasconcelos/ Fevereiro 2, 2012/ Publicações/ 0 comments

A hipnose já foi vedete na medicina, conquistando grandes defensores e também ferrenhos opositores, tudo isso começou na França pré-iluminista, por volta de 1750. A figura central desta polêmica foi o médico austríaco, Franz Anton Mesmer, responsável pela transposição e adaptação de uma técnica tipica dos tratamentos místico-religiosos para um procedimento usado nos moldes da medicina tradicional, da época. No entanto, o Dr. Mesmer foi apenas o precursor da hipnoterapia, a pessoa que deu o passo inicial e, talvez, mais importante, uma vez que todas as demais adaptações conceituais, técnicas e éticas para o modelo médico levariam, pelo menos, 150 anos para acontecer (e continuam a acontecer até hoje).

No século seguinte, a hipnose ganhou novamente destaque na medicina, desta vez, deixando de ser usada como um método generalista, para se concentrar no tratamento da histeria e de alguns outros transtornos mentais. Foram as observações iniciais do neurologista vienense, Sigmund Freud, que destacaram os benefícios clínicos no uso da hipnose, segundo ele, o tratamento (Freud, 1886):

“Consiste em dar ao paciente…  uma sugestão que contém a eliminação do distúrbio em causa. Assim, por exemplo, curamos uma “tosse nervosa” fazendo pressão sobre a laringe do paciente hipnotizado e assegurando-lhe que foi removido o estímulo que o faz tossir, ou curamos uma paralisia histérica do braço compelindo o paciente, sob hipnose, a mover o membro paralisado, parte por parte. O efeito até se torna maior se adotarmos um método posto em prática, pela primeira vez, por Joseph Breuer, em Viena, e fizermos o paciente, sob hipnose, remontar à pré-história psíquica da doença, compelindo-o a reconhecer a ocasião psíquica em que se originou o referido distúrbio. Esse método de tratamento é novo, mas produz curas bem-sucedidas, que, por outros meios, não são alcançadas.”

 

Por várias vezes, Freud se mostrou um grande entusiasta e defensor no uso da hipnose, realizando a tradução de dois livros sobre o assunto, porém, ao aprofundar seus estudos e sua experiência clínica, ele percebeu que a hipnose não realizava milagres e os muitos sintomas que pareciam desaparecer quase que imediatamente, poderiam retornar depois, ou se transformar em outros sintomas equivalentes. Assim, o paciente que teve eliminada a sua “tosse nervosa”, podia, por exemplo, desenvolver asma; outro paciente que havia sido curado de uma paralisia, depois retornava como uma dor crônica, e assim por diante.

Visando contornar esta situação, Freud desenvolveu uma forma alternativa de tratamento que ele chamou de “psicanálise”. Ele acreditava que a partir da escuta atenta à fala aleatória do paciente (chamada de método da associação livre), conseguiria chegar às causas das neuroses (Freud adotava o pensamento linear mecanicista de causa e efeito, que dominava o pensamento científico em sua época). Desse modo, se por um lado, a hipnose era um método com resultados imediatos –  embora, muitas vezes, ilusórios – por outro, a psicanálise, demandava anos de tratamento, talvez, uma vida inteira, e, ainda assim, não havia demonstrado qualquer eficácia terapêutica, segundo as suas análises na época em que foram escritas (Freud as questionaria anos à frente, dizendo não haver encontrado um substituto para a hipnose).

Contudo, mesmo tendo o inconveniente de, em alguns casos, apenas encobrir os sintomas, a hipnose parecia conseguir curar, de fato, alguns pacientes. Tal fato, longe de ser abandonado, mereceria, sim, ser amplamente pesquisado. E assim aconteceu. Os estudos e pesquisas sobre o uso da hipnose nunca pararam, ela possui hoje o maior número de artigos e pesquisas publicados – maior do que qualquer outra psicoterapia (NASH, 2000) – porém, a maioria das pessoas só tem acesso as partes superficiais e/ou polêmicas da história, são as narrativas resumidas de seus professores, ou as informações da mídia, mas evitam em se aprofundar nos pormenores do conhecimento, uma vez que já criam uma expectativa negativa.

Por outro lado, atualmente estamos presenciamos a expansão das chamadas “Terapias Alternativas”, um movimento que tem levado pessoas, das mais diversas áreas, a se tornarem terapeutas. A oferta é sedutora: ser um profissional independente, ter o seu próprio consultório, ajudar as pessoas e ganhar dinheiro, na hora, tudo isso sem precisar fazer nenhuma faculdade de medicina, ou de psicologia, parece ser um verdadeiro “negócio da China”.

E embalado por este discurso sedutor tem surgido uma grande oferta de cursos de fim de semana, cada qual prometendo sempre a melhor formação, no tempo mais curto, e com a terapia mais sensacional de todas, o que, supostamente, justificaria os elevados preços desses cursos. Envolvidos emocionalmente pelo discurso, centenas de novos terapeutas tem surgido a cada ano, formados em cursos breves, geralmente, ministrado por outro terapeuta que usa a própria imagem pessoal como ilustração dos supostos benefícios e da prosperidade da nova profissão.

É neste contexto que o tratamento superficial com o uso da hipnose tem se ampliado e virado a atração do momento. Renomados especialistas já chamavam atenção para que ficássemos receosos, antes de ficarmos animados, toda vez que a hipnose se tornasse manchete nos jornais como sendo a boa menina, pois sempre que isso aconteceu na história, seguiu-se, posteriormente, um movimento de declínio e difamação no uso da técnica (Lazarus, 1971). Certamente, talvez não pelas próprias limitações da hipnose, mas pelas limitações técnicas e éticas daqueles que, entraram na onda, e a elegeram como o seu método mágico de cura.

Por conseqüência, temos uma massa cada vez maior de profissionais com muita informação superficial, mas pouco conhecimento específico e aprofundado sobre tópicos básicos da terapêutica psicológica. E isso faz com que boa parte dessas pessoas continue repetindo os mesmos erros do passado, semelhantes aos descritos por Freud, em 1886, ao usar a hipnose para sumir com os sintomas.

Quando Freud estudou a hipnose, as limitações eram do próprio conhecimento científico que não fornecia uma explicação plausível sobre a função dos sintomas. Mas parte deste problema já fora resolvida, há pelo menos cinqüenta anos, com as descobertas da psicologia experimental e comportamental. Os estudos com a análise funcional do comportamento, desenvolvidos pelos comportamentalistas, trouxeram maiores esclarecimentos sobre a dinâmica das doenças psicológicas.

Atualmente, o método terapêutico mais utilizado para o tratamento das fobias e até de outras doenças, é chamado de “método de dessenssibilização”, uma técnica de exposição gradual ao objeto temido. Ele é o mesmo utilizado no tratamento superficial com hipnose, muito embora poucos saibam que – nem sempre – o tratamento de uma fobia por este método leva, realmente, a cura do problema que gerou a fobia, podendo apenas criar uma ilusão de cura, como na técnica testada por Freud.

Uma vez que a terapia popular e alternativa não possui critérios rigorosos para avaliar a melhoria dos clientes, pode a simples notificação verbal de que “está se sentindo melhor”, ou mesmo o abandono precoce da terapia, serem julgados como um sinal de eficácia da terapia. Em uma análise criteriosa, Lazarus (1971) descobriu que até 50% dos pacientes tratados com exposição durante terapias comportamentais, tinham tido recaídas logo após os primeiros meses, sendo que os terapeutas que usavam as técnicas de exposição de maneira generalizada, mais atrapalhariam do que melhorariam o bom  andamento clínico dos pacientes.

Como ilustração, vejamos o caso clínico de fobia a pontes, tratado por Arnold Lazarus (1971). Antes, vale lembrar que as fobias são transtornos mentais que tem uma boa resposta a vários tipos de terapias, sejam elas embasadas em alguma terapêutica comprovada, ou não. O fator comum exigido nessas práticas é que o fóbico enfrente o seu medo progressivamente, não importando se foi ele encorajado porque estava usando uma fita do Senhor do Bonfim, por influência da sugestão hipnótica, ou porque acreditou que os seus “centros energéticos” foram equilibrados por um curandeiro.

A Fobia de Pontes
Paciente
: tenho medo de atravessar pontes.
Terapeuta: Você tem outros medos ou dificuldades?
P: somente as complicações vindas do meu medo de pontes.
T: De que modo isso tem afetado sua vida?
P: Tive que deixar um emprego excelente em Berkley
T: Onde você mora?
P: Em São Francisco
T: Para chegar a este instituto você teve que atravessar a Golden Gate.
P: Sim, eu estava indo a um médico, ele tentou me dessensibilizar, mas não conseguiu, aí me mandou consultar você, porque você sabe mais sobre esse tipo de tratamento. Não é tão ruim quando estou com minha mulher e minhas crianças, mas a Golden Gate tem um kilômetro e meio, é meu limite máximo.
T: Mas diga-me, por quanto tempo você tem tido este problema?
P: Há, mais ou menos quatro anos. Aconteceu de repente. Eu vinha do trabalho para casa e o tráfego estava muito lento. Repentinamente, entrei em pânico sem motivo algum. Nada como isso tinha acontecido antes. Senti que ia bater nos outros carros. Uma vez senti como se a ponte fosse desabar.
T: Voltemos para a primeira experiência de pânico. Você disse que vinha do trabalho para casa. Alguma coisa tinha acontecido no trabalho?
P: Nada de especial.
T: Você estava feliz no trabalho?
P: Claro! Eu esperava uma promoção.
T: Quanto a mais você ganharia?
P: Um extra de 3mil dólares ao ano.
T: E quanto ao trabalho, o quanto teria que fazer a mais?
P: Bem, eu seria um supervisor. Eu teria tido mais de cinqüenta homens trabalhando sob minhas ordens.
T: Como você se sentia com relação a responsabilidade a mais? Você sentiu que estava à altura, que podia arcar com ela?
P: Puxa! Minha mulher estava grávida de nosso primeiro filho. Ambos precisávamos de dinheiro extra.
T: Então, mais ou menos no tempo em que você ia ser pai, você deveria ser promovido. Você ia enfrentar dois papéis desafiadores. Você pai em casa e pai no trabalho. E isto aconteceu quando você começou a entrar em pânico na ponte, e acho que você nunca chegou a ser supervisor.
P: Não. Tive que pedir transferência para a cidade.
T: Agora pense com cuidado sobre esta questão. Você alguma vez se envolveu em qualquer acidente em uma ponte, ou próximo a uma ponte, ou testemunhou qualquer acidente sério numa ponte ou próximo a ela?
P: Não, que eu possa me lembrar.

T: Se você não tivesse desenvolvido a fobia e se tivesse se tornado supervisor, ganhando 3mil a mais, onde você pensa que estaria hoje?
P: Ainda em Berkley
T: Ainda supervisor? Mais dinheiro?
P: Que inferno! Quem sabe (risos)? Talvez eu fosse vice-presidente. Estou só brincando, mas poderia ter acontecido.

O relato indica que o especialista não se limitou ao “problema atual” partindo erroneamente para o tratamento sintomático com o uso da hipnose. Ele tratou, primeiramente, de descobrir se a fobia era o problema causado por outros fatores comportamentais, ou apenas um sintoma isolado, fruto de uma associação traumática. Assim, ele foi em busca da contextualização e da função do comportamento: como funcionava e para que servia; que fatores antecederam o aparecimento repentino; quais respostas mal-adaptadas precisavam ser eliminadas e quais precisavam ser adquiridas; o que estava por trás do sintoma, quais os fatores antecessores poderiam levar o paciente a um estado de vulnerabilidade?

Baseado na pesquisa dessas informações e do conhecimento da teroia da aprendizagem, a terapia foi desviada da queixa principal para desvendar uma história na qual o paciente, o mais novo de cinco irmãos, tendia a aceitar a previsão da mãe, de que, diferentemente de seus brilhantes irmãos mais velhos, ele nunca chegaria a nada.

Tal regra funcionava como uma profecia que se autocumpria, provocando auto-sabotagem, esquivas, mal-estar e o aparecimento de sintomas de ansiedade sempre que o paciente se via numa situação de ascensão profissional maior do que os irmãos mais velhos.

Se Lazarus tivesse utilizado a hipnose para tratar apenas a fobia a pontes, provavelmente, o paciente teria se livrado do medo, mas continuaria sujeito a desenvolver novos sintomas, toda vez que as condições ambientais (da regra) se repetissem. Porém, uma vez tratado o problema funcional (lidar com os sentimentos de inferioridade e as regras determinadas pela mãe), e não apenas o sintoma (fobia de pontes), o paciente percebeu que o medo de atravessar pontes sumiu tão rapidamente quanto aparecera. Além disso, ele se tornou imune a novos incidentes (de ascensão profissional), além adquirir mais confiança e segurança em si mesmo (comportamentos em falta, no início).

No tratamento meramente sintomático e superficial, os sintomas poderiam sumir rapidamente e dar a falsa impressão, tanto para o terapeuta, como para o paciente, de que tudo havia sido magicamente resolvidos. Dando ao terapeuta a mesma sensação que Freud havia descrito, em 1886:

“…havia algo de positivamente sedutor em trabalhar com o hipnotismo. Pela primeira vez havia um sentimento de haver superado o próprio desamparo, e era altamente lisonjeiro desfrutar da reputação de ser fazedor de milagres.” (Freud, 1886).

Para terapeutas pouco seguros não haveria algo mais gratificante, mas ilusório e até perigoso, se fechar em uma redoma e se autoconsiderar um verdadeiro realizador de milagres. Este risco reforça a importância das publicações científicas que aprofundam e promovem o progresso e o aperfeiçoamento das terapias. Algo que deve ser incansavelmente buscado por todos aqueles que optam por trabalhar com a terapêutica psicológica e/ou promoção da saúde.

A hipnose continua sendo uma grande ferramenta no arsenal de técnicas e de procedimentos psicoterapêuticos, mas seu uso deve ser cuidadosamente pensado dentro de modelo mais amplo e legitimado de terapia. A aferição de resultados deve ser consistente com a metodologia científica, devendo o paciente responder questionários específicos de avaliação, passados seis e doze meses da terapia. Utilizar a hipnose sozinha, como pau para toda obra, sem levar em conta os avanços do conhecimento psicoterapêutico, é simplificar e limitar as possibilidades de um tratamento realmente bem sucedido. Baseado nestas premissas, cito a máxima, de Martin Orne:

“If a person is not professionally qualified to treat something without hypnosis, then they’re not qualified to treat something with hypnosis, either.

“Se a pessoa não está profissionalmente qualificada para tratar alguém sem hipnose, então, ela também não estará qualificada para tratar alguém com hipnose.”

 

FREUD, 1886. (Obras Brasileiras Completas Standart Edition). CD-ROM.
LAZARUS. Psicoterapia Personalista: uma visão além dos princípios do condicionamento: Manole, 1971.
NASH, M. R. The Status of Hypnosis as an Empirically Validated Clinical Intervention: a preamble to the special issue. International Journal of clinical and Experimental Hypnosis, v.48, n.2, April, p.107-112. 2000. 

Leon Vasconcelos Lopes, Psy Ms.
Diretor da Comportamento.Net

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