Leon Vasconcelos/ Novembro 5, 2012/ Publicações/ 0 comments

Imagine a seguinte situação observada em uma pesquisa feita pelo Ministério da Saúde:

“Numa avaliação estatística sobre casos de câncer de próstata, foi descoberto que pequenas cidades do interior têm incidência de câncer acima da média das grandes cidades.”

Pensando na descoberta acima, qual explicação você daria para tal fato? Pense por um instante!

Provavelmente, você deve ter pensado que o acesso a saúde é mais difícil no interior, e há mais preconceito para se fazer o exame da próstata, ou que as pessoas são mais carentes.

Agora reflita sobre os dados e tente imaginar explicações para a descoberta a seguir:

“Numa avaliação estatística sobre casos de câncer de próstata, foi descoberto que pequenas cidades do interior têm incidência de câncer abaixo da média das grandes cidades.”

Dessa vez, você pode ter pensado que no interior as pessoas têm uma vida com menos estresse, com uma alimentação mais saudável, entre outras coisas, correto?

Agora vamos direto ao assunto. Ao realizar a sua análise, seu cérebro usou o Sistema 1, ou Sistema Intuitivo, para justificar os dados da pesquisa. Como você não conhecia a explicação para a descoberta dos pesquisadores, você deduziu interpretações condizentes com os resultados. Ou seja, independentemente dos dados, suas explicações buscaram justificar os achados.

Mas, infelizmente, para o seu azar, ambos os casos estavam errados. Você cometeu um erro chama de Heurística da Possibilidade. Mas não se preocupe, este tipo de erro do pensamento acontece cotidianamente com todas as pessoas, inclusive com matemáticos e estatísticos que conhecem bem os erros heurísticos, em teoria.

Você simplesmente não usou o Sistema 2, o sistema do raciocínio lógico. Essa preguiça mental do Sistema 2 afeta quase todas as pessoas. Você já repassou as famosas correntes, ou informações por email, sem se preocupar em checar as fontes? Coisas do tipo: matéria do Fantástico que ensina como aumentar a segurança no Facebook; criança com doença que recebe doações ao se curtir ou compartilhar a foto, entre outras.

Saiba que 80% do que circula na internet é puro e simplesmente lixo eletrônico, boatos inverídicos e criações sensacionalistas. Cada vez que a mensagem é repassada, o email da sua lista de contatos é capturado por programas que usam essas informações para vender para empresas de mala direta. (Você pode dar uma conferida nas centenas de boatos que circulam na internet, acessando o site do E-farsas.)

Mas talvez você esteja se perguntando o porquê de ambas as informações sobre a pesquisa do câncer de próstata estarem erradas?  Bem, se eu perguntasse a você qual a probabilidade de uma moeda jogada para cima cair cara, ou caroa, você diria sabiamente que seria 50%.

Acontece que a estatística é uma ciência de grandes números, se uma moeda fosse testada 50mil vezes, os resultados
seriam bem condizentes com o 50%. Acontece que pequenas amostras tendem a acumular erros que destoam do geral. Se você pegar uma moeda (faça o teste) e jogá-la vinte vezes para cima, é quase certo que você não terá dez caras e dez coroas.

Quanto menor a quantidade, menor também será a exatidão. Nos casos exemplificados, destacamos que “pequenas cidades do interior têm incidência de câncer acima da média das grandes cidades.” É como se jogássemos uma moeda para cima dez vezes e ela caísse oito vezes com a cara voltada para cima. Tal fato é provável acontecer, já que se trata de uma amostra pequena. Os resultados extremos, tanto para mais, quanto para menos, têm a maior probabilidade de serem encontrados em amostras pequenas.

Esta fato mina a credibilidade das pesquisas quantitativas feitas com pequenas amostras, pois quanto menor a população, menor será a validade científica, neste caso, validade estatística.

Defender que uma determinada terapia é eficaz por ter apresentado bons resultados com quinze, ou vinte, sujeitos experimentais, é tão insignificante quanto jogar uma moeda vinte vezes para cima e dar cara em quinze das ocasiões. Esta eficácia em baixa escala deveria apenas sugerir a necessidade de uma pesquisa mais ampla e mas não deve ser confundida uma comprovação científica.

Assim a heurística é definida como um procedimento simples que ajuda a encontrar respostas adequadas, ainda que geralmente imperfeitas, para perguntas difíceis.

No próximo artigo, daremos outras demonstrações do efeito da heurística sobre nossos sistemas de escolha.

Para saber mais:

Rápido e Devagar: duas formas de pensar. Do psicólogo israelense e vencedor do Nobel de Economia de 2002, Daniel Kahneman. Editora objetiva, 2011.

Este artigo foi escrito por:

Leon Vasconcelos, Psy Ms.
criador da Comportament.Net

 

 

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