Leon Vasconcelos/ Novembro 15, 2012/ Publicações

O Período Pré-Científico

hipnose_fortaleza_Leon_Vasconcelos_comportamento.netA ausência de conhecimento profundo e sistematizado sobre o funcionamento do organismo e de formas eficientes para se combater as doenças, fez do período anterior a Modernidade um terreno fértil para a expansão da medicina popular e do curandeirismo.

Desde aquela época até os dias atuais, as concepções sobre as doenças oscilam entre duas vertentes teóricas: a ontológica e a dinâmica. A primeira ressalta qualquer doente como um homem aumentado ou diminuído em algo, e funcionava como um meio de tranqüilizá-lo. “O que o homem perdeu pode lhe ser restituído, o que nele entrou, pode sair. Mesmo se a doença é sortilégio, encantamento, possessão demoníacas, pode-se ter a esperança de vencê-la.” (CANGUILHEM, 2000, p.19).

A segunda, que tem seu marco na medicina hipocrática grega, ao contrário, oferece uma concepção dinâmica das doenças, não mais localizada, mas totalizante. A natureza tanto no homem como fora dele é harmonia e equilibrada, sendo a doença uma perturbação nesse equilíbrio natural. A causa das doenças seria uma desarmonia nos quatro humores corporais (GORDON, 1997; TAVARES DE SOUSA, 1996). “A doença não é somente desequilíbrio ou desarmonia; ela é também, e talvez, sobretudo, o esforço que a natureza exerce no homem para obter um novo equilíbrio. A doença é uma reação generalizada com intenção de cura” (CANGUILHEM, 2000, p.21).

Práticas de Cura da Antigüidade ao Século XVII

Uma das primeiras técnicas empregadas pelo homem no tratamento das doenças foi a cura pela imposição das mãos, chamada pela civilização Assíria Babilônica de “cura milagrosa pela carícia magnética”. No Antigo Egito, era simbolicamente representada pelas mãos da Deusa Ísis, a senhora da magia, invocada nas antigas escrituras como uma deusa da cura, restauradora da vida e fonte de ervas curativas. Ísis era venerada como a senhora das palavras de poder, cujos encantamentos faziam desaparecer as doenças (LERÈDE, 1984; PRADO, 1967).

Atribuíam-se aos imperadores bizantinos e carolíngios, assim como aos santos da Igreja Católica o poder de cura pela imposição das mãos. Segundo Volgyesi (Volgyesi apud PRADO, 1967), as curas realizadas posteriormente por Jesus e seus apóstolos, através da imposição das mãos, seriam uma mera continuação das curas milagrosas precedentes. A importância dada a cura pelo toque com as mãos era alta, pois dela surgiu a etimologia da palavra “médico”. Uma referência a Hércules, também conhecido como “daktylos”, que significa dedos, e, portanto, o termo latino medicus (médico) que não significa outra coisa, senão, dedo médio(THOMAS, 1991).

Durante a Idade Média, com o poder centralizado nas mãos da Igreja Católica, a razão teológica se torna o guia do pensamento, da moral e da justiça, na sociedade européia. De acordo com a concepção vigente, a ação sobrenatural era uma possibilidade, mas que só poderia emanar de duas fontes possíveis: de Deus, ou do Diabo. E com exceção das graças sobrenaturais conseguidas a partir de rituais litúrgicos, ou da atividade curativa dos Santos, todo o restante era considerado diabólico e, portanto, abominável (THOMAS, 1991).

Tal fato, fez com que os curandeiros que não procurassem alcançar um resultado por meios que não fossem puramente naturais, nem dirigidos por Deus, fossem acusados de aliar-se a Satã e reprimidos, na maioria das vezes, com penas de tortura e morte (FOUCAULT, 2004; LEVACK, 1988).

Todavia é o estatuto do que seria “natural” que vai guiar a interpretação da Igreja e dos estudiosos sobre a qualidade dos procedimentos de cura. As interpretações que se estendem por toda Idade Média e Moderna pré-iluminista, estavam baseadas em interpretações das obras de Platão (428-347 a.C.) e de Aristóteles (384-322 a.C.) (THOMAS, 1991).

Durante a Idade Média, até por volta do século XVII, os clérigos da Igreja Católica que fossem influenciados pelo neoplatonismo, estariam dispostos a julgar como provenientes de causas naturais uma gama maior de atividades do que seus confrades, adeptos da visão aristotélica da matéria, e muito menos flexíveis (ABBAGNANO, 1999; THOMAS, 1991).

Para Aristóteles nada poderia agir à distância. O que estava em jogo não eram diferenças de princípios religiosos, mas uma visão do mundo natural. O ressurgimento do platonismo, a ultima escola de filosofia pagã antiga, alimentou a tendência a apagar a diferença entre espírito e matéria. Em vez de ser considerada inanimada a própria Terra era vista como uma coisa viva .

O universo era tido como povoado por uma hierarquia de espíritos, manifestando todos os tipos de influências e simpatias ocultas. O cosmos era uma unidade orgânica em que cada parte mantinha uma relação congênita com os demais (THOMAS, 1991).

Por todo esse período de curas mágicas a explicação mais comum recaía sobre alguma propriedade divina. No entanto, um tipo de tratamento mágico diferenciado recebeu atenção especial das monarquias européias, mas que se manteve afastado da explicação religiosa tradicional, esse tratamento foi “a cura pelo toque do rei”.

A Cura pelo Toque do Real (sec. XIII – XVII)

A cura pelo toque real é a primeira forma de tratamento conhecida no Ocidente em que se concedia uma pródiga indulgência oficial. Ela se popularizou por vários países Europeus e, segundo Faria (1979), foi iniciada na Inglaterra por Eduardo I, o Confessor, rei da Inglaterra da dinastia Plantageneta, entre 1272 e 1307. Entretanto, o cerimonial completo só foi estabelecido no reinado de Henrique VII (1457-1509). Apenas nos anos posteriores à Revolução de 1688, foi que a cerimônia começou a declinar (THOMAS, 1991).

Cura pelo Toque

Cura pelo Toque

E assim se dava o procedimento de cura real:

Num ofício religioso especial conduzido pelos membros mais importantes do clero anglicano, o monarca depunha suas mãos sobre cada membro da longa fila de sofredores. Os pacientes se aproximavam um a um e ajoelhavam-se perante o monarca, que os tocava levemente no rosto, enquanto um capelão lia em voz alta o versículo de são Marcos: “Eles porão mãos sobre os doentes e eles se recuperarão”. A seguir retrocediam e avançavam de novo, para que o rei pudesse colocar em seus pescoços uma moeda de ouro pendurada numa faixa de seda branca (THOMAS, 1991, p.67)

A partir do século XIII, até meados do século XVII, por toda Inglaterra as autoridades paroquiais levantavam recursos para levar os doentes de escrófula – uma inflamação tuberculosa das glândulas da garganta, geralmente causada pela ingestão de leite estragado – para Londres, em busca da cura pelo toque do rei (THOMAS, 1991).

Dados da época apontam que Eduardo I tocou mais de mil doentes por ano no final do século XIII, Carlos II atendeu a mais de 90 mil doentes de 1660-4 e 1667-83. E em Maio de 1682 e Abril de 1683, atingiu o ápice de 8577 pacientes no Registro de Cura do Rei, o que representava quase metade da população (THOMAS, 1991).

Fazia-se grande defesa do valor terapêutico do toque real. O cirurgião Richard Wiseman declarou ter presenciado centenas de curas e afirmou que Carlos II curou, num único ano, mais doentes “do que todos os cirurgiões de Londres em uma vida inteira.” (THOMAS, 1991).

Na metade do século XVI, na Inglaterra, a expectativa de vida da população era baixa, as estatísticas mais otimistas eram de quarenta e cinco anos, enquanto que as mais pessimistas afirmam que vinte nove anos. No entanto, mesmo os que escapavam das moléstias causadas por doenças e deficiência alimentares estavam condenados a uma vida de dores físicas intermitentes, pois as fontes literárias sugerem que muitas pessoas sofriam de um ou outro mal crônico (THOMAS, 1991).

Os ricos e os pobres eram igualmente vítimas das infecções provocadas pela falta de higiene, desconhecimento de anti-sépticos e falta de saneamento básico. No século XVII, as epidemias foram responsáveis por 30% das mortes em Londres. Havia surtos periódicos de gripe, tifo, disenteria e varíola (THOMAS, 1991, p.21):

No século XVI e início do século XVII, os médicos formados nas universidades recebiam um ensino puramente acadêmico sobre os princípios de fisiologia dos humores, tais como apresentados nas obras de Hipócrates, Aristóteles e Galeno. Aprendiam que a doença surgia de um desequilíbrio entre quatro humores (o sangue, a fluegma, a bílis amarela e a bílis negra).

Os médicos do século XVII eram incapazes de diagnosticar ou tratar a maioria das doenças, sem falar que, como declarou o bispo Latimer, em 1552, a medicina “é um remédio preparado apenas para as pessoas mais ricas, e não para os pobres…” (TAVARES DE SOUSA, 1996, p.23).

Alguns reis atribuíam à propriedade curativa de suas pessoas ao dom específico de Deus, ou à eficácia das palavras. O fato é que fosse o curador um rei, um membro do clero, ou um curandeiro popular, ter prestígio mostrava-se ser um dos elementos fundamentais para a eficácia de sua terapia (THOMAS, 1991).

Os racionalistas defendiam que as curas se deviam mais a influência da imaginação do que à virtude do toque, ou de alguma intervenção divina. Nessa época, o pensamento no cristianismo medieval era, predominantemente, mágico, uma vez que as pessoas acreditavam na sua capacidade de produzir efeitos físicos à distância pelo uso de fórmulas mágicas, simpatias e amuletos (LEVACK, 1988).

A terapêutica mágica encontrava respaldo nas idéias médicas e filosóficas de Ibn Sina (980-1037), conhecido na cultura ocidental como Avicena, célebre filósofo e médico persa. Em suas obras, escritas no século X, ele defendiam que a imaginação humana possuía poderes e força que conseguia atuar diretamente sobre o funcionamento corporal: “Pela palavra, pela vontade e pela persuasão – afirmava Avicena – muitos padecimentos podem ser curados.”(Avicena apud FARIA, 1979, p.5).

Com a invenção da imprensa pelo alemão Johannes Guttenberg (1390-1468) se deu início ao desenvolvimento de uma nova tecnologia que teria um impacto social profundo nas décadas subsequentes. Pois, nessa época, os livros, eram escritos à mão por monges e escribas, e cada exemplar demorava meses para ser preparado, tendo um preço elevadíssimo e inacessível para a maioria da população.

A produção do primeiro livro impresso de Gutenberg foi a Bíblia que começou a ser fabricada em 1450. Calcula-se que ele a tenha terminado em 1455. Essa Bíblia é considerada o incunábulo mais importante, pois demarca o início da produção em massa de livros no Ocidente (RANSOM, 2008). Pois embora ela fosse usada como suposto guia da Igreja para determinação da ordem moral e social, suas cópias eram raras e manuscritas em latin, uma língua desconhecida pela maioria. A partir do século XVI esse panorama começa a mudar, quando várias cópias da Bíblia, traduzidas para vários idiomas e dialetos, são disponibilizadas (BRAGA;GUERRA et al., 2005).

O fato é que após o surgimento da imprensa e a maior difusão dos livros e das idéias, surge o movimento de Reforma Protestante, que proclama a autonomia da consciência individual e postulava um relacionamento direto entre o homem e Deus, removendo muitos intermediários religiosos que o catolicismo medieval havia estabelecido entre eles. Desenvolveu-se, assim, a idéia de que cada crente era um sacerdote que, pela leitura da Bíblia, poderia adquirir fé por si só e obter a salvação (LEVACK, 1988).

Talvez, como propõe Mcluhan (2005), essas idéias já efervescessem nos bastidores, ocultando-se da repreensão severa, sendo a nova tecnologia da imprensa apenas um meio uma extensão do próprio homem, da sua fala, das suas idéias e aspirações.

A cura pelo toque do rei começa a entrar em decadência a partir de 1681, e vai sendo progressivamente abandonada. O enfraquecimento do absolutismo teocêntrico possibilita a difusão de novas idéias e terapêuticas sugestivas. A magnetoterapia, uma prática de aplicação de metais e ímãs para tratamento de doenças, embora provenha da Antigüidade, passa a se tornar mais popular.

Exorcismos e a Medicina Magnética no Século XVIII

A teoria mais recente dessa época que justificava o uso de ímãs no tratamento das doenças, é o Sistema da Simpatia Magnética, de Paracelso (1493-1541). As suas obras eram consideras uma verdadeira revolução teórica na medicina do século XV, e pressupõe que se os ímãs eram capazes de atrair partículas de ferro, talvez também fossem capazes de atrair certas enfermidades psíquicas (PRADO, 1967).

O ímã era considerado o representante maior do psiquismo, pois sua capacidade de atração e repulsão invisíveis funcionava como prova empírica de sua força psíquica. “O ímã atrai o ferro morto, inerte; é capaz, com subjetividade única, de manifestar uma espécie de volição pessoal em relação àquilo que é pura objetividade.”(PRADO, 1967, p.2).

A ideia de que as doenças seriam um elemento estranho e que poderiam ser atraídas e transferidas de um portador a outro são muito antigas e faziam parte da cultura médica popular de tempos imemoráveis. São abundantes os relatos de benzedeiros, feiticeiros e curandeiros que afirmavam que durante o benzimento era comum sentir os mesmos sintomas da pessoa ou do animal que estavam tentando curar (THOMAS, 1991).

No campo intelectual, o estudo intelectual da magia foi um fenômeno europeu que surgiu somente na Renascença florentina com o platonismo de escritores como Ficino e Pico della Mirandola, difundindo-se para o Norte da Europa através das obras de Paracelso e Cornelius Agrippa (PRADO, 1967).

Como para os seguidores do neoplatonismo não havia uma separação clara entre corpo e espírito, orgânico e mental, a magnoterapia, terapia de aplicação de ímãs na parte do corpo doente, funcionava como uma espécie de psicoterapia, mas com a distinção de ser o principal método de tratamento para qualquer tipo de doença.

O ímã cura os fluxos dos olhos, dos ouvidos, do nariz e das articulações externas; por este mesmo método se curam as úlceras, as fístulas, o câncer e os fluxos mentruais. Também contribui para resolver as fraturas e cura a icterícia e a hidropsia, segundo a prática me tem demonstrado com freqüência (PRADO, 1967).

A doutrina de Paracelso explicava ainda em que cada pessoa havia um arqueos que constituiria sua atividade vital. Ela acreditava na existência de um fluido vital simpático emanado dos corpos celestes e que também se fazia presente nas criaturas vivas, promovendo a comunicação dos arqueos de diferentes seres vivos (PRADO, 1967).

Todo homem, portanto, teria uma virtude atrativa e oculta, um magnês (força psíquica) que lhe permitia, se são, atrair os magnês das pessoas doentes e atuar a partir de seu intermédio, sobre os arqueos dessas pessoas, ou seja, agira sobre o próprio princípio da atividade vital (PRADO, 1967).

A pretensão de curar pelo toque não era exclusiva dos reis. O toque ou a fricção leve era um integrante comum do ritual terapêutico realizado por curandeiros e curandeiras. Mas estes eram perseguidos pelas cortes eclesiásticas e acusados de magia e bruxaria.

O uso dos ímãs, mesmo sendo considerado um método natural para a cura,  quando nas mãos de um cidadão comum poderia ainda ser motivo de acusação de conjuração em algumas regiões mais ortodoxas, mas esse ímã fosse usado por um representante da Igreja, então, além de ser um uso legítimo, poderia se tornar um potente método terapêutico.

Aproveitando que as idéias da Antiguidade ainda não haviam sido por completo extintas, alguns padres aproveitam essa abertura e passam a usar de seu prestígio para se dedicarem a arte do curandeirismo. Como foi o caso do Pe. Gassner (1727-1779), que desenvolveu uma mescla de técnicas que iam desde a aplicação de ímãs à cura pelo exorcismo, desenvolvidas em um clima de encenação teatral.

Contam que após curar-se de fortes dores de cabeça e tonturas, Gassner achou que sua doença era devido a uma influência maligna do satanás, resolveu, então, ajudar outras pessoas que pudessem estar sofrendo do mesmo mal (WEISSMANN, 1978).

Ele classificou as doenças em dois tipos distintos: causas naturais, em que o melhor tratamento seria o médico (na época, consistia basicamente e se realizar sangrias); e causas sobrenaturais, que não poderiam ser curadas pela medicina. As doenças sobrenaturais foram divididas em: circumsessio: imitação de doenças naturais provocadas pelo demônio; obssessio: doenças provocadas pelos encantamentos das bruxas e;possessio: a chamada possessão demoníaca (ELLENBERGER, 1970; FARIA, 1979; PRADO, 1967; WEISSMANN, 1978).

Para realizar o tratamento, Gassner usava uma vestimenta negra, típica de cerimônias sacerdotais, e se dirigia aos fiéis de maneira teatral, recitando palavras em latim. Assim descreve Weissmann (1978), sua forma de atuação:

Entrando de maneira sensacionalista no aposento, padre Gassner toca uma jovem com o crucifixo, e essa, cai ao chão como que fulminada, em estado de desmaio. Ao proferir palavras em latim, a paciente reage instantaneamente. Em resposta à ordem “Agitatur bracium sinistrum”, o braço esquerdo da jovem começa a mover-se. E ao comando ríspido “Cesset!”, o braço se imobilizara voltando a posição anterior. Em seguida, o padre diz que ela está louca e, com o rosto horrivelmente desfigurado, a jovem corre furiosamente pela sala, manifestando todos os sintomas característicos da loucura. Bastou a ordem enérgica “Pacet!” para que ela se aquietasse como se nada tivesse acontecido de anormal. O padre Gassner nesta altura lhe ordena em latim, e a jovem pronuncia o idioma que normalmente lhe é desconhecido. Finalmente, Gassner ordena à moça uma redução nas batida do coração. Um médico presente constata uma diminuição na pulsação e, ao comando contrário, o pulso se acelera, chegando a 120 pulsações por minuto. Depois, a jovem, estendida no chão, recebe a sugestão de que suas pulsações se iriam reduzir cada vez mais, até pararem completamente. Seus músculos iriam relaxar totalmente e ela morreria, ainda que apenas temporariamente. E o médico, espantado, não percebendo sequer vestígio de pulso ou de respiração, declara a jovem morta! O padre Gassner sorri confiantemente. Bastou uma ordem sua para que a jovem voltasse gradativamente à vida. E com o demônio devidamente expulso de seu corpo, sentido-se como nascida de novo, desperta agradece sorridente ao padre o milagre de sua cura (WEISSMANN, 1978).

O sensacionalismo na terapêutica do padre Gassner, tinha a ver com sua concepção de doença como interferência mágica, uma luta entre o bem e o mal, interpretação que já não era mais bem vista nos grandes centros urbanos e culturais devido a ascensão do pensamento iluminista. No início da Modernidade, o racionalismo se expandia enquanto as explicações sobrenaturais começavam a ser progressivamente substituídas por explicações naturais.

As marcas de intolerância e do absolutismo da Idade Média influenciaram na formação de uma nova mentalidade e de um novo paradigma (BRUNER, 1991; KUHN, 2006; MORIN, 2000), que levou os pensadores modernos à formulação de um método de busca da verdade que pudesse banir por completo os resquícios do pensamento medieval, com características místicas e dogmáticas.

Foi desse modo que os novos pensadores tentarem se precaver do obscurantismo ao criar um método de desconfiar de tudo o que pudesse remeter a uma visão mística da natureza, como destacam Braga, Guerra et al.(2005, p.15):

“Ao longo do século XVIII, os europeu aprofundaram ainda mais seu projeto de estabelecer uma nova forma de produção de conhecimentos. Iniciada no final da Idade Média, a chamada Revolução Científica tomou forma ao longo do século XVII. No decorrer do século seguinte ela se expandiu para diversas áreas do conhecimento, fazendo nascer uma nova cultura, na qual a ciência mecanicista se constituía como núcleo de uma nova racionalidade, rompendo definitivamente com as estruturas medievais baseadas numa razão teológica.

O final do século XVIII e a primeira metade do século XIX foi também o período que desenhou as bases da medicina contemporânea, culminando em um processo de aproximação da medicina com o campo da ciência moderna (CAMARGO JR., 1995).

Eis que nesse novo cenário iria surgir uma das figuras mais polêmicas da história da medicina, Franz Friedrich Anton Mesmer (1734 – 1815), que se tornou o protagonista de uma luta que expunha, entre outras coisas, a transição dos valores, o espaço de intervenção nos corpos como monopólio médico e contra o “curandeirismo”, o mascaramento dos conflitos sociais pela sua redução a um problema médico, e a formalização da medicina como detentora de um poder disciplinar, implícito nas suas relações discursivas, e como parte do campo de poder da sociedade (BACHELARD, 2006; BOURDIEU, 1998; BRUNER, 1991; CAPRA, 1997; CHERTOK e STENGERS, 1990; FOUCAULT, 2004, 2005; MORIN, 1983, 2000).

Enquanto Gasnner obtinha sucesso e fama como grande curador que personificava as forças da tradição teológica e ia contra o espírito de seu tempo, Mesmer é um filho do Iluminismo e desenvolve novas técnicas, novas idéias e nutre grandes expectativas para o futuro com seu novo método de tratamento. A sua abordagem é instrumental, ao contrário de Gasnner, e ele acreditava que tudo estava propício para a obtenção de uma revolução científica que tinha em mente (ELLENBERGER, 1970).

Leon Vasconcelos Lopes
diretor da Comportamento.Net
17.10.2008
Extraído de: LOPES, Leon G. V. Dissertação de Mestrado em Saúde Coletiva.
A Epistemologia da Cura pela Sugestão: a hipnose a a saúde coletiva.
Universidade de Fortaleza. Mestrado Acadêmico em Saúde
Coletiva. Capítulo 1. UNIFOR, 2008.

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