Leon Vasconcelos/ Abril 2, 2013/ Publicações

curandeiro hipnoseOutro dia, estava lendo um artigo de um famoso médico hipnólogo, que atuou 90 atrás, e que dizia algo mais ou menos assim: “Todo crescimento repentino da hipnose foi seguido do seu posterior descrédito e ostracismo“.

Quando li a frase, parecia estar diante daquelas professias de Nostradamus. Embora não tivesse nada de sobrenatural, mas a observação de um comportamento social que, volta e meia, se repete.

Estamos novamente vivendo a “onda da hipnose”, disseminada em curos por auto-denominados “professores” e “terapeutas” que nunca puseram os pés numa faculdade – o que já não garantiria muita coisa, haja vista que 50% dos nossos universitários são analfabetos funcionais (Pesquisa, 2012) – mas que poderia servir ao menos de consolo.

Há quem ache essa “onda” algo maravilhoso, pois “finalmente os profissionais de saúde, pesquisadores, cientistas passaram a valorizar o potencial da hipnose”. Tolo engano!

Curandeiro2Embora a produção acadêmica tenha realmente saído do zero, a proporção de pesquisadores e profissionais da saúde capacitados em hipnoterapia é absurdamente inferior a quantidade de pesssoas sem qualquer tipo de preparação, estudo, ou mesmo habilidades básicas de leitura e compreensão crítica, que se auto-denominam “hipnólogos”.

Este fato explica a lógica da contradição na frase citada acima. A explicação do “porque isso acontece?” já é algo conhecido e motivador do descrédito da hipnose em outros países, há tempos.

Esta popularização sem regras e do uso de um procedimento clínico desenvolvido para intervir nos transtornos mentais, foi o que motivou os médicos e psicólogos espanhóis a criarem um novo termo para hipnose, na tentativa de salvaguarda-la da multidão de “hipnólogos de fim de semana”.

Lá a hipnose passou a se chamar Sofrologia, sendo o uso deste procedimento restrito aos profissionais capacitados da área da saúde. 

Já aqui, a hipnose é difundida na mídia por pessoas inescropulosas, que investem pesado em publicidade para ter acesso a programas de tv em rede nacional. A frase, transcrita abaixo, é exemplo de algo que pode ir da completa falta de bom senso, passando pela completa ignorância, ou até charlatanismo mesmo. Sintomas que indicam processos comportamentais, são transformados em objetos que são magicamente eliminados em alguns minutos.

 “Eu tenho conseguido 95% de sucesso, Eliminando Depressão em apenas quatro sessões, Síndrome do Pânico, Ansiedade Compulsiva, Dores Crônicas, Síndrome do Membro Fantasma, Cefaleias e Enxaquecas, em apenas uma, no máximo duas sessões.” R.W.

Façamos uma comparação realista do problema, apenas dos casos de depressão:

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a depressão atinge cerca de 121 milhões de pessoas no mundo[1]. No Brasil, a prevalência da depressão ao longo da vida é de 15%. Sintomas de depressão e de transtornos de ansiedade lideram o atendimento de emergências psiquiátricas no maior pronto-socorro psiquiátrico de São Paulo.

Agora você faz uma pequena reflexão crítica:

1 – Pesquisadores de todo o mundo estão ralando, realizando pesquisas, comparando dados, testando vários procedimentos para tentar melhorar as condições de tratamento da depressão. Soma-se a isso, o fato que um dos maiores especialistas em depressão dos USA, Michael Yapko, é um psicólogo, autor e professor de hipnoterapia. Além dele, temos vários discípulos diretos de Milton Erickson, como Ernest Rossi, Jeffrey Zeig,  e milhares de Institutos Milton Erickson espalhados pelo mundo (13 no Brasil). Sem conta as dezenas de outras linhas de pesquisa e intervensão clínica.

2- NENHUM profissional ético e capacitado, nem os mais conceituados pesquisadores e clínicos do mundo, prometem curar depressão, ainda mais em número x, y e z de sessões!

3- Mas foi justamente aqui, no Brasil, que um sujeito sem nunca por os pés numa faculdade, que sequer tem habilitação e conhecimento para diagnosticar doenças psiquiátricas descobriu a “cura da depressão”, e de quebra, da síndrome do pânico, ansiedade compulsiva, dores crônicas, dor do membro fantasma, cefaléias e enxaquecas… (e muitas outras que ele se limitou a citar!)

E se você pensa que isso é o que me impressiona por tamanha falta de bom senso, você está enganado!

O que realmente me deixa chocado são as pessoas que financiam esse tipo de prática. Longe de ser gente abastada, há profissionais de saúde, psicólogos, médicos, e gente de várias outras áreas, que pagam quantias de R$500-R$1000 num curso de fim de semana para um curso de enganação. O pior é que o prejuízo não é apenas pessoal, ele tem uma consequência maior que é o financiamento desse tipo de prática.

hipnose

curandeiro1(2)

É difícil entendercomo um profissional sem o mínimo conhecimento dos transtornos psicológicos pode querer tratar alguma coisa, só mesmo apelando para a influência emocional ou divina.

A falta de bom senso e a crença no sensacional agem como uma doença, atrasando as nossas sociedades e impedindo o florescer do racional. O triste não é simplesmente ver o sujeito que promete curas absurdas, mas ver pessoas que tiveram acesso ao ensino superior, mostrarem-se desprovidas de senso crítico. Este fato é diferente dos autênticos curandeiros de fé, benzedeiras, mãe de santo, pastores.

Estamos falando de um caso em que o sujeito se apropria de um saber científico, se auto intitula especialista e consegue vender curso para os próprios especialistas de fato.

E para finalizar este artigo, vou citar um caso triste e bárbaro acontecido nos USA. O grau de ignorância e estupidez foram tão absurdos que uma médica participou da morte de uma criança numa dessas terapias feitas por gente, no mínimo, transtornada!

Renascimento é um termo para uma terapia comumente usada entre os pais adotivos ou assistentes sociais. É utilizada para tratar distúrbios de “apego” sofridos por crianças adotadas. É muito controversa, porque já houve pelo menos seis casos documentados de mortes de crianças. Em 2000, uma menina de 10 anos morreu de asfixia durante uma sessão. A menina, Candace Newmaker, foi embrulhada em camadas de cobertores, e então forçada a “renascer”. A criança teve que lutar contra o peso combinado de seus terapeutas e da mãe adotiva para se livrar das cobertas, não conseguiu se soltar, e morreu. No vídeo da sessão, dá para ouvir Candace pedindo aos psicoterapeutas para ser solta: “Eu vou morrer. Por favor, eu não consigo respirar”. Os terapeutas respondem: “Você quer morrer? OK, então morra. Vá em frente, morra agora”. Os envolvidos foram condenados a 16 anos de prisão, e o método de “renascimento” foi proibido no Colorado.

www1.folha.uol.com.br/revista/rf2406200115.htm

Leon Vasconcelos Lopes
psicólogo, jornalista e professor de psicopatologia
diretor da Comportamento.Net

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