A Cura pela Psicoterapia

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Uma das perguntas mais comuns que escutamos, é:

“Vou ser curado?”

A ideia por trás desta pergunta é proveniente da nossa cultura midiática que tenta enaltecer a ciência como um espetáculo. Destacam os grandes feitos científicos, como extinção da varíola, as vacinas que imunizam contra viroses, os antibióticos que combatem as infecções. E com isso, favorece a disseminação de uma imagem mítica da doença como algo que se apoderou do corpo e que precisa ser eliminado.

Esse modelo até parece funcionar seletivamente muito bem para alguns poucos problemas médicos, como gripe, verminoses, inflamação na garganta, infecções por certos tipos de bactérias não resistentes . Mas não funciona para muitos outros, como dengue, embola, malária, herpes, AIDS, câncer, filariose, doenças degenerativas e uma vasta quantidade de patologias.

Porém, todas as doenças, incluindo as chamadas de “orgânicas” são afetadas por variáveis comportamentais. Uma dor na coluna, causada por uma hérnia de disco, pode ser agravada por esforços físicos, por má alimentação, ou pelo uso indiscriminados de medicamentos, e até mesmo por problemas emocionais.

Hoje sabemos que uma série de doenças que apresentam sintomas físicos, como asma, urticária, alergias, hipertensão, gastrite e diabetes, podem ser causadas por fatores comportamentais.

Portanto, quanto focamos o comportamento como objeto da intervenção, temos que levar em conta muitas variáveis que não podemos controlar, cabendo ao cliente um papel ativo no engajamento do tratamento.

Geralmente, os clientes ficam surpresos quando afirmo que: “nenhum profissional, seja médico, psicólogo, fisioterapeuta, ou qualquer outro profissional de saúde, pode garantir, ou vender curas”.

Os profissionais de saúde realizam tratamento que são baseados em procedimentos testados e pesquisados pela ciência que se mostraram eficazes no tratamento de outras pessoas com problemas semelhantes.

Esses estudos fornecem evidências de que uma determinada terapia funcionou em um grande número de pessoas. Porém, estamos falando de estatísticas, de aproximações, nunca de algo com tem 100% de certeza.

Além da terapia que tem que ser de boa validade, há também o papel de participação ativa do cliente na sua própria recuperação. Ninguém consegue tratar um alcoólatra, ou qualquer outro tipo de problema, se a pessoa não aceita ser tratada.

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Somos capazes de modificar o comportamento de insetos, aves, roedores, cães, gatos, e até mesmo, de baleias assassinas de seis toneladas.

Somos os únicos profissionais capazes de analisar, compreender e de aperfeiçoar o comportamento de crianças com autismo, ou com algum tipo de retardo mental, que antes eram simplesmente tidas como inválidas.

Também conseguimos promover mudanças surpreendentes na vida de pessoas com doenças mentais graves, com transtorno bipolar, com anorexia e bulimia, depressão, síndrome do pânico, fobias e todos os demais tipos de neuroses.

– “Mas se isso é possível, porque não é possível prometer a cura?”

Porque o comportamento de uma pessoa é mantido pelas conseqüências que esse comportamento tem sobre o ambiente, sobre as outras pessoas a sua volta. O comportamento, mesmo considerado desajustado, ou patológico, afeta as outras pessoas com quem se interage e ele retroage, afetando novamente o emissor.

Quando modelamos o comportamento de um organismo, precisamos interferir na relação dele com o ambiente. E isso é bem mais fácil em situações experimentais, na qual o especialista apenas manipula as variáveis que controlam o comportamento, mas ele próprio não se relaciona diretamente com o próprio organismo.

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Quando alguém tem um cão problemático, o animal tem o seu temperamento definido geneticamente pela raça, no entanto, a genética só existe em realção com o meio. E isso implica que 80% do trabalho deve incidir sobre os donos, pois eles fazem parte do ambiente ao qual o animal vive. Esta mudança no ambiente vai promover uma mudança no organismo, o que é totalmente oposto com a noção de “cura interior”.

Esse tal de “interior” é apenas uma metáfora, pois tudo o que você pensa, o que sonha, e o que faz,  e como age, acontece devido a uma interações que você tem com o exterior, ou seja, o ambiente físico, social e cultural. Até os nossos próprios pensamentos só existem em decorrência de situações que foram vividos no passado, e que fizeram-nos aprender a falar, pensar, refletir, imaginar, fantasiar, hipotetizar.

Quando alguém se dá conta de que não é algo “no interior” que vai mudar magicamente e transformar a sua vida, fica mais claro compreender que a chave para as mudanças está nas interações com as outras pessoas. São elas que criam as circunstâncias para os comportamentos ocorrerem, sejam eles bons, ou ruins.

Esses comportamentos acontecem de maneira X, Y ou Z, porque foram emitidos assim no passado e que, por algum motivo, mesmo que pelo o motivo mais improvável e absurdo do mundo, eles funcionaram.

Por isso, saber qual é a função de um comportamento na vida do paciente é a primeira coisa a se buscar na terapia. Não há como simplesmente intervir, ou usar uma técnica, seja ela qual for, se não se conhece a “função do comportamento”.

Uma das grandes descobertas da “ciência do comportamento” garante que: um comportamento só se mantém se ele estiver sendo reforçado, ou seja, recompensado, de alguma maneira.

Portanto, o comportamento por mais absurdo que possa parecer, está, de alguma maneira, trazendo algum benefício, ou afastando algum perigo, mesmo que eles sejam fantasiosos, ou irreais.

Dito isso, retornamos à questão inicial:

“Então, porque não posso simplesmente ser curado?”.

Porque o terapeuta não possui poder sobre esse ambiente que controla e seleciona o comportamento do paciente. A sua estratégia não é mudar as peças do tabuleiro de xadrez, mas ajudar o paciente a descobrir a lógica do jogo e se antecipar a ele.

Esta é a nossa tarefa como terapeutas, usamos a análise para compreender as interações do paciente com o ambiente a sua volta, e manejamos o nosso próprio comportamento para afetar essa interação, motivando, orientando, incentivando o paciente a efetuar as mudanças necessárias.

Somos uma parte importante e estratégica para ele obter “a cura”, entendendo ela como a modificação na freqüência de determinados comportamentos, pensamentos, crenças. Porém, não vendemos, damos, ou realizamos “a cura”.

Trabalhamos como treinadores que analisam, discutem, traçam uma estratégia, incentivam, e, no final, comemoram juntos cada vitória

 

Leon Vasconcelos, Psy Msc.
diretor-fundador do Comportamento.Net