Sobre a Hipnose na Psicoterapia

Uma rápida busca por “hipnose” na internet e você terá acesso a centenas, senão, milhares de explicações sobre a técnica. Para a nossa surpresa, a maioria dos ditos “especialistas” sequer pôs os pés numa faculdade de psicologia. Isso se deve, em parte, ao fato da técnica ser mais antiga do que a própria psicologia, mas, principalmente, porque a hipnose passou a ser ensinada a qualquer curioso em cursos de fim de semana e ainda com a promessa de ganhos financeiros com a venda de “serviços de hipnoterapia”.

A falta de uma formação acadêmica consistente na maior parte dos praticantes os deixa à deriva da ilusão da “eficácia percebida” e ajuda a multiplicar os mitos sobre a técnica, o principal deles:

“A hipnose promove a cura rápida de transtornos psicológicos.

Apesar de infundado, esse mito funciona como uma isca para levar as pessoas a investirem em supostos tratamentos com promessas de cura rápida. A maioria ignora, porém, que o simples anúncio, ou a promessa de cura, é tipificado como Crime de Charlatanismo, previsto no Artigo 283 do Código Penal.

Art. 283 – Inculcar ou anunciar cura por meio secreto ou infalível:
Pena – detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano, e multa.

Há, portanto, uma radical separação entre a prática terapêutica e os preceitos éticos da saúde, e a propaganda enganosa ou charlatanismo. Boa parte dessa “propaganda antiética” é causada simplesmente por pura ignorância e falta de vivência na cultura da medicina, ou da psicologia. Não é incomum que alguns vendedores-formadores de hipnoterapia a tratem como “um negócio”, da mesma maneira como seriam vendidos outros produtos, como roupas, seguros e planos de saúde. São também essas diferenças o que delimitam os serviços dos profissionais da saúde dos da medicina informal, popular ou alternativa.

Feito esse breve esclarecimento, partimos para a seguinte questão:

“Para que serve a hipnose no tratamento psicológico?”

Primeiramente, é preciso entender que a hipnose é um tipo de treinamento que fortalece o poder de controle verbal das instruções do hipnólogo sobre comportamento do hipnotizado. Ao realizar tal procedimento, conhecido por indução hipnótica, o hipnólogo treina o sujeito para abdicar do seu controle crítico e voluntário para se permitir ser conduzido pelas instruções do hipnólogo. Ele o faz por acreditar que o hipnólogo usará o procedimento para tratar algum transtorno ou sofrimento, é por isso ele se deixa hipnotizar, e também que se deve se prezar pela ética e pelo conhecimento terapêutico.

Desse modo, longe de ser uma tipo de sono, a hipnose é uma condução consentida do comportamento. Acrescento que o “comportamento” não se refere apenas as ações motoras, mas as sensações, as percepções, imaginação, ao raciocínio lógico e aos pensamentos em geral.

Daí vamos para a segunda questão:

“Se durante a hipnose o terapeuta aumenta o controle sobre o comportamento do hipnotizado, como ele poderia usar isso para tratar doenças, ou transtornos psicológicos?”

É nesse momento que a porca torce o rabo e toda a promessa de facilidade no aprendizado rápido da hipnose começa a desmoronar. Qualquer tipo de terapêutica, seja da medicina, fisioterapia, ou psicologia, pressupõe que o profissional tenha bem fundamentado a compreensão do funcionamento normal do organismo (É para isso que servem tantas disciplinas: fisiologia, psicopatologia, teorias de personalidade, ética, etc.). Sem o bom entendimento dos conceitos amplos de saúde, doença e normalidade, qualquer tentativa de tratamento, seja em qual for a área, não passará de mera especulação, ou experimentalismo.

É baseado no que já é conhecido, testado e confirmado que os profissionais de saúde devem se amparar. Caso o interesse fosse o de criar novas técnicas e procedimentos, esses mesmos profissionais deveriam trabalhar com pesquisa, se qualificando por meio de cursos de pós graduação: mestrados, doutorados e pós doutorados. Quem é pesquisador, investiga e analisa criteriosamente os procedimentos e as técnicas para fins terapêuticos; Já quem é clínico, terapeuta, deveria aplicar as técnicas e procedimentos que já  foram testados, analisados, confrontados e devidamente confrontados os riscos e os benefícios, para só assim ser considerado um procedimento eficaz.

É por esse motivo que os terapeutas experientes e com sólida formação não são facilmente seduzidos pelas novas “técnicas infalíveis” e pelos modismos que surgem todos os dias, haja vista que a maioria é fruto de especulações e sensacionalismos.

Como afirmei acima, o treino na hipnose consiste em “se deixar conduzir acriticamente pelo hipnólogo”. Durante a hipnose, a relação do sujeito com o mundo é mediada pelo comportamento verbal do hipnólogo, e não pelas situações reais existentes no mundo ou fora do consultório. Ao se deparar com esses eventos na vida real e sozinho, o treino imaginário feito com a hipnose pode, em alguns casos, reduzir parcialmente as reações condicionadas de medo e apreensão. Todavia, esse efeito de “Rivotril Natural” não capacita o sujeito a lidar plenamente como as novas situações.

Posso exemplificar com o caso de uma pessoa que tem medo de falar inglês, mas é convencida, por hipnose, de que fala fluentemente o idioma. No “pós hipnose” há duas possibilidades básicas: a primeira, é que a pessoa já havia estudado e aprendido razoavelmente o idioma, mas apenas tinha vergonha, ou receio de falar. Neste caso, a hipnose sim vai funcionar muito bem, mas não por ter “ensinado inglês rapidamente”, senão por ter aumentado a confiança do falante de se expor ao diálogo. No segundo caso, o hipnotizado sem qualquer conhecimento básico da língua inglesa, iria falar empolgadamente por alguns dias e a própria reação das outras pessoas, que não conseguiriam entender patavinas do que ele estava tentando falar, iria se encarregar de produzir o enfraquecimento, ou desvanecimento, da confiança artificialmente induzida, sem que houvesse uma base comportamental de aprendizagem capaz sustentar o comportamento emitido. É exatamente o segundo caso que que acontece com maior frequência nos tratamentos mal feitos com a hipnose, realizados por pessoas que não entendem de terapia e que acreditam que a hipnose irá “curar magicamente”, justificando tal fato por explicações tão obscuras quanto o conceito de “inconsciente”.

Ou seja, longe de ser “algo fácil” o sucesso da técnica está diretamente relacionado a capacidade do profissional em analisar e discriminar com exatidão os sintomas, são contextualização com eventos relacionados e os comportamentos manifestos do cliente. Portanto, a hipnose exigiria sim, um terapeuta bem mais capacitado do que um terapeuta que não usa a hipnose, e não o contrário.hypnosis

Portanto,  durante a aplicação da hipnose é possível promover a redução rápida dos sintomas e o controle da dor, é por isso que um dos seus primeiros usos foi para o controle da dor em procedimentos cirúrgicos, mas as dores crônicas têm mecanismos bem distintos e necessitam de análise comportamental precisa dos eventos contextuais ocultos, ou inconscientes, que mantém a dor  persistente. Nesse caso, os sintomas passam a ser a fumaça que conduz ao fogo , tornando-se essenciais para o diagnóstico e tratamento eficiente, o que implica na identificação e na mudança dos comportamentos problemáticos. O simples abafar da fumaça pela “força da sugestão hipnótica” não vai inibir o fogo que continuará queimando latente. E não há para que se iludir com “histórias de vidas passadas e traumas de infância”, pois o que de fato cronifica os sintomas tem a ver com o presente, as circunstancias afetivas, e a falta de habilidades sociais para lidar com essas demandas primordiais do seres humanos, animais sociais.

Por isso, quanto mais afiado for o bisturi , mais hábil e competente deve ser o cirurgião. Se a hipnose é esse instrumento mítico tão poderoso, por coerência, deve estar nas mãos não dos entusiastas, senão nas mãos dos mais hábeis terapeutas que poderão utilizá-la nas situações em que realmente o instrumento for necessário, sem transformar o próprio instrumento no fim, senão, em apenas um dos meios facilitadores do verdadeiro trabalho da terapia que, em sua maior parte, é realizada sem a hipnose.

Leon Vasconcelos Lopes, Msc.
Terapeuta Comportamental, introdutor da hipnose ericksoniana no Ceará, autor da primeira tese de mestrado sobre hipnose e Saúde Coletiva, no Brasil; Tem 20 anos de experiência com hipnose nas áreas: hospitalar, clínica, terapêutica e educacional.